O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. I - DOS ESPÍRITOS 103

à sua vontade. Deus existe de toda eternidade e isto é incontestável; mas saber quando e como nos criou, não o sabemos. Podes dizer que não tivemos princípio, se entenderes com isso que sendo Deus eterno, tem criado sem descanso; mas quando e como ele criou cada um de nós, digo-te, ainda, ninguém o sabe; aí é que está o mistério.

79 - Visto que existem dois elementos gerais no Universo - o elemento inteligente, e o elemento material - poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente como os corpos inertes são formados do elemento material?

- Evidentemente; os Espíritos são individualizações do princípio inteligente como os corpos são individualizações do princípio material. A época e o modo dessa formação é que são desconhecidos.

80 - A criação dos Espíritos é permanente, ou só ocorreu na origem dos tempos?

- É permanente; quer dizer, Deus não cessou jamais de criar.

81 - Os Espíritos se formam espontaneamente ou procedem uns dos outros?

- Deus os cria, como a todas as outras criaturas, pela sua vontade; mas, ainda uma vez, a origem deles é mistério.

82 - É exato dizer-se que os Espíritos são imateriais?

- Como se pode definir uma coisa, quando faltam ter-mos de comparação e com uma linguagem insuficiente? Pode um cego de nascimento definir a luz? Imaterial não é o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que sendo o Espírito uma criação, deve ser alguma coisa. É a ma-téria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.

Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque sua essência difere de tudo o que conhecemos sob o nome de matéria. Uma comunidade de cegos não teria termos para definir a luz e seus efeitos. Um cego de nascença crê possuir todas as percepções pelo ouvido, o odor, o gosto e o tato; ele não compreende as idéias que lhe dariam o sentido que lhe falta. Da mesma forma, com relação à essência dos seres sobre-humanos somos verdadeiros cegos. Não os podemos definir senão por comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da nossa imaginação.