O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO X 1044

ofensa leve, como quereis que Deus esqueça que, cada dia, tendes maior necessidade de indulgência? Oh! ai daquele que diz: "Eu nunca perdoarei", porque pronuncia a sua própria condenação. Quem sabe, aliás, se, descendo em vós mesmos, não fostes o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por um golpe de espinho e acaba por uma ruptura, não iniciastes o primeiro golpe? se uma palavra ofensiva se não vos escapou? se usastes de toda a moderação necessária? Sem dúvida, vosso adversário errou em se mostrar muito suscetível, mas é para vós uma razão para serdes indulgentes e de não merecer a censura que lhe endereçais. Admitamos que fostes realmente o ofendido numa circunstância, quem diz que não envenenastes a coisa por represálias, e que não fizestes degenerar em querela séria aquilo que teria podido facilmente cair no esquecimento? Se dependia de vós impedir-lhe as conseqüências, e se não o fizestes, sois culpados. Admitamos, enfim, que não tendes absolutamente nenhuma censura a vos fazer, e, com isso, não tereis senão maior mérito em vos mostrar clementes.

Mas há duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem de seus adversários: "Eu lhe perdôo", enquanto que, interiormente, experimentam um secreto prazer do mal que lhe acontece, dizendo para si mesmas que ele não tem senão o que merece. Quantos dizem: "Eu perdôo" e que acrescentam: "mas não me reconciliarei nunca; não quero vê-lo pelo resto da vida." Está aí o perdão segundo o Evangelho? Não; o verdadeiro perdão, o perdão cristão, é aquele que lança um véu sobre o passado; é o único que vos será contado, porque Deus não se contenta com a aparência: ele sonda o fundo dos corações e os mais secretos pensamentos; não se lhe engana com palavras e vãos simulacros. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é próprio das grandes almas; o rancor é sempre um sinal de rebaixamento e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos, bem mais que pelas palavras. (PAULO, apóstolo, Lião, 1861).

A INDULGÊNCIA

16. Espíritas, queremos vos falar hoje da indulgência, esse sentimento tão doce, tão fraternal, que todo homem de-