O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO XII 1070

que não é senão do orgulho e do amor-próprio. Em vos criando, Deus vos deu o direito de vida e de morte, uns sobre os outros? Não, ele não deu esse direito senão à Natureza somente, para se reformar e se reconstruir; mas a vós, não permitiu de dispordes de vós mesmos. Como o suicida, o duelista estará marcado com sangue quando chegar a Deus e, a um e ao outro, o Soberano Juiz prepara longos e rudes castigos. Se ameaçou com a sua justiça aquele que disser ao seu irmão racca, quanto a pena será bem mais severa para aquele que apareça diante dele com as mãos vermelhas do sangue de seu irmão! (SANTO AGOSTINHO, Paris, 1862).

13. O duelo é, como antigamente o que se chamava o julgamento de Deus, uma dessas instituições bárbaras que regem ainda a sociedade. Que diríeis, entretanto, se vísseis mergulhar os dois antagonistas na água fervente ou sujeitá-los ao contato de um ferro em brasa para resolver suas querelas, e dar razão àquele que suportasse melhor a prova? Chamaríeis a esses costumes de insensatos. O duelo é ainda pior que tudo isso. Para o duelista emérito, é um assassinato cometido a sangue-frio, com toda a premeditação desejada, porque ele está seguro do golpe que dará; para o adversário, quase certo de sucumbir, em razão da sua fraqueza e de sua inabilidade, é um suicídio, cometido com a mais fria reflexão. Eu sei que, freqüentemente, procura-se evitar essa alternativa, igualmente criminosa, atribuindo-a ao acaso; mas, então, não é, sob uma outra forma, um retorno ao julgamento de Deus da Idade Média? E ainda, nessa época, era-se infinitamente menos culpado; o próprio nome julgamento de Deus indica uma fé, ingênua é verdade, mas enfim uma fé na justiça de Deus que não podia deixar sucumbir um inocente, enquanto que, no duelo, se confia na força bruta de tal sorte que, freqüentemente, é o ofendido quem sucumbe.

Ó amor-próprio estúpido, tola vaidade e louco orgulho, quando, pois, sereis substituídos pela caridade cristã, pelo amor ao próximo, e pela humildade de que o Cristo deu o exemplo e o preceito? Só então desaparecerão esses preconceitos monstruosos que governam ainda os homens, e que as leis são impotentes para reprimir, porque não basta interditar o mal e prescrever o bem, é preciso que o princípio do bem e o horror ao mal estejam no coração do homem. (UM ESPÍRITO PROTETOR, Bordéus, 1861).