O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO XVI 1124

em sua fortuna; só a ele cabe todo o mérito; seu orgulho coloca-lhe uma venda nos olhos e lhe tapa os ouvidos; não compreende que, com toda a sua inteligência e sua habilidade, Deus pode derrubá-lo com uma só palavra.

Esbanjar a fortuna não é desapego aos bens terrenos, mas negligência e indiferença; o homem, depositário desses bens, não tem mais o direito de os dilapidar ou de os confiscar em seu proveito; a prodigalidade não é generosidade mas, freqüentemente, uma forma de egoísmo; aquele que atira ouro a mancheias para satisfazer uma fantasia, não daria uma moeda para prestar serviço. O desapego aos bens terrestres consiste em apreciar a fortuna pelo seu justo valor, em saber servir-se dela para os outros e não só para si, a não sacrificar por ela os interesses da vida futura, a perdê-la sem murmurar se apraz a Deus vo-la retirar. Se, por reveses imprevistos, vos tornardes um outro Job, dizei como ele: "Senhor, vós ma havíeis dado, vós ma haveis tirado; que seja feita a vossa vontade." Eis o verdadeiro dasapego. Sede submissos primeiro; tende fé naquele que vos tendo dado e tirado, pode vos restituir; resisti com coragem ao abatimento, ao desespero que paralisam a vossa força; não olvideis jamais, quando Deus vos atingir, que ao lado da maior prova, coloca ele sempre uma consolação. Mas pensai sobretudo, que há bens infinitamente mais preciosos que os da Terra e esse pensamento vos ajudará a vos desapegar destes últimos. O pouco valor que se atribui a uma coisa faz com que menos sensível seja a sua perda. O homem que se apega aos bens da Terra é como a criança que não vê senão o momento presente; aquele que a eles não se prende é como o adulto que vê as coisas mais importantes, porque compreende estas palavras proféticas do Salvador: "Meu reino não é deste mundo."

O senhor não ordena abdicar do que se possui, para se reduzir a uma mendicidade voluntária, e tornar-se uma carga para a sociedade; agir assim seria compreender mal o desapego dos bens terrestres; é um egoísmo de outro gênero, porque é se isentar da responsabilidade de que a fortuna faz pesar sobre aquele que a possui. Deus a dá a quem lhe  parece bom para geri-la em proveito de todos; o rico tem, pois, uma missão, missão que pode tornar bela e proveitosa para ele; rejeitar a fortuna quando Deus vô-la dá, é renunciar ao benefício do bem que se pode