O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO XXIII 1185

crendo matar a idéia matando o homem; mas a idéia sobreviveu, porque era verdadeira; cresceu porque estava nos desígnios de Deus e, saída de um obscuro burgo da Judéia, foi plantar sua bandeira na própria capital do mundo pagão, em frente dos seus inimigos mais obstinados, daqueles que tinham maior interesse em combatê-la, porque ela derrubava as crenças seculares, que muitos tinham bem mais por interesse do que por convicção. Aí as lutas mais terríveis esperavam seus apóstolos; as vítimas foram inumeráveis, mas a idéia cresceu sempre e saiu triunfante, porque se sobrepunha, como verdadeira, sobre as suas predecessoras.

14. Há a observar-se que o Cristianismo chegou quando o Paganismo estava em seu declínio, e se debatia contra as luzes da razão. Era praticado ainda quanto à forma, mas a crença tinha desaparecido, só o interesse pessoal o sustentava. Ora, o interesse é tenaz; não cede jamais à evidência; se irrita tanto mais, quanto os raciocínios que se lhe opõem são mais peremptórios e lhe demonstram melhor seu erro; ele bem sabe que está em erro, mas isso não lhe toca, porque a verdadeira fé não está em sua alma; o que mais teme é a luz que abre os olhos aos cegos; esse erro lhe tem proveito e, por isso, se agarra a ele e o defende.

Sócrates não tinha, ele também, emitido uma doutrina análoga, até certo ponto, à do Cristo? Por que, pois, não prevaleceu nessa época, entre um dos povos mais inteligentes da Terra? É que o tempo não havia chegado; ele semeou em terra não trabalhada; o Paganismo não estava ainda gasto. Cristo recebeu sua missão providencial no tempo próprio. Todos os homens do seu tempo não estavam, tanto quanto era preciso, à altura das idéias cristãs, mas havia uma aptidão mais geral para assimilá-las, porque se começava a sentir o vazio que as crenças vulgares deixam na alma. Sócrates e Platão tinham aberto o caminho e predisposto os espíritos. (Ver na introdução, parágrafo IV, Sócrates e Platão, precursores da idéia cristã e do Espiritismo).

15. Infelizmente, os adeptos da nova doutrina não se entenderam sobre a interpretação das palavras do Mestre, a maior parte veladas sob a alegoria e a figura; daí nascerem, desde o início, as seitas numerosas que pretendiam, todas, terem a verdade exclusiva, e que dezoito séculos não puderam pôr de acordo. Esquecendo o mais importante dos divinos preceitos, aquele do qual Jesus havia feito a pedra angu-