O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO XXIII 1194

e não aos orgulhosos que crêem possuir toda a luz e não ter necessidade de nada. (Ver na introdução: Publicanos, Porta-geiros).

Estas palavras, como tantas outras, encontram sua aplicação no Espiritismo. Admira-se, por vezes, que a mediunidade seja concedida a pessoas indignas e capa-zes de fazer mau uso dela; parece, diz-se, que uma faculdade tão preciosa deveria ser atributo exclusivo dos mais merecedores.

Digamos primeiro que a mediunidade se prende a uma disposição orgânica da qual todo homem pode estar dota-do, como a de ver, de ouvir, de falar. Não há uma da qual o homem, em virtude do seu livre arbítrio, não possa abusar, e se Deus não houvesse concedido a palavra, por exem-plo, senão aos que são incapazes de dizer coisas más, haveria mais mudos que falantes. Deus deu ao homem as faculdades e o deixa livre para usá-las, mas pune sempre aquele que delas abusa.

Se o poder de se comunicar com os Espíritos não fosse dado senão aos mais dignos, qual aquele que ousaria preten-dê-lo? Onde estaria, aliás, o limite da dignidade e da indigni-dade? A mediunidade é dada sem distinção, a fim de que os Espíritos possam levar a luz em todas as fileiras, em todas as classes da sociedade, ao pobre como ao rico; aos sábios para os fortalecer no bem, aos viciosos para os corrigir. Estes últimos não são os doentes que têm necessidade de médico? Por que Deus, que não quer a morte do pecador, o privaria do socorro que pode tirá-lo do lamaçal? Os bons Espíritos vêm, pois, ajudá-lo, e seus conselhos, que ele recebe diretamente, são de natureza a impressioná-lo mais vivamente do que se os recebesse por outros caminhos. Deus, em sua bondade, para lhe poupar o trabalho de ir procurar a luz ao longe, lha coloca na mão; não é bem mais culpado se não a conside-rar? Poderá se desculpar por ignorância quando terá escri-to, ele mesmo, visto com seus olhos, ouvido com seus ou-vidos, e pronunciado com sua boca, a sua própria condena-ção? Se não aproveita, é então que é punido com a perda ou desmoralização de sua faculdade, da qual os maus Espíritos se apoderam para obsediá-lo e enganá-lo, sem prejuízo das aflições reais com que Deus atinge seus servidores indignos, e os corações endurecidos pelo orgulho e pelo egoísmo.