O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO I - O FUTURO E O NADA 1286

2. – Pela crença em o nada, o homem concentra fortemente todos os seus pensamentos sobre a vida presente; não poderia, com efeito, logicamente se preocupar com o futuro que ele não espera. Essa preocupação exclusiva do presente conduz, naturalmente, a pensar em si antes de tudo; é, pois, o mais poderoso estímulo ao egoísmo, e o incrédulo é coerente consigo mesmo quando chega a esta conclusão: gozemos enquanto aqui estamos, gozemos o mais possível, porque depois de nós tudo estará terminado; gozemos depressa, porque não sabemos quanto isso durará; e a esse outro, também muito grave para a sociedade: gozemos, apesar de tudo; cada um por si; a felicidade, neste mundo, é do mais esperto.

Se o respeito humano retém alguns, que freio podem ter aqueles que nada temem? Eles dizem que a lei humana não alcança senão os inábeis; por isso aplicam seu gênio nos meios de a contornarem. Se há uma doutrina malsã e anti-social, seguramente, é a do nihilismo porque rompe os verdadeiros laços da solidariedade e da fraternidade, fundamentos das relações sociais.

3. – Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo adquirisse a certeza de que, em oito dias, em um mês, em um ano se se quer, ele será aniquilado, e nenhum indivíduo sobreviverá, que não restará marca nenhuma de si mesmo depois da morte; que fará durante este tempo? Trabalhará pelo seu melhoramento, pela sua instrução? Se entregará ao trabalho para viver? Respeitará os direitos,  os  bens,  a  vida  dos  seus  semelhantes?  Submeter-se-á às leis, a uma autoridade, qualquer que seja, mesmo a mais legítima: a autoridade paterna? Terá para si um dever qualquer? Seguramente que não. Pois bem! O que não se alcança em massa, a doutrina do nihilismo o realiza, cada dia, isoladamente. Se as conseqüências disso não são tão desastrosas tanto poderiam ser, é primeiro porque, entre a maioria dos incrédulos, há mais de fanfarrice do que de verdadeira incredulidade, mais dúvida do que convicção, e porque têm mais medo do nada do que procuram aparentar: o título de espírito forte lisonjeia-lhes o amor-próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos são uma ínfima minoria; sentem, malgrado eles, ascendência da opinião contrária e são mantidos por uma força material; mas, se a