O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO I - O FUTURO E O NADA 1287

incredulidade absoluta se tornar um dia a opinião da maioria, a sociedade estará em dissolução. É ao que tende a propagação da doutrina do nihilismo. (1)

Quaisquer que sejam as conseqüências, se o nihilismo fosse uma verdade, seria preciso aceitá-lo, e não seriam nem sistemas contrários, nem o pensamento do mal que dele pudesse resultar, que poderiam fazer com que não o fosse. Ora, não se pode dissimular que o cepticismo, a dúvida, a indiferença, cada dia, ganham terreno, malgrado os esforços da religião; isto é positivo. Se a religião é impotente contra a incredulidade, é que lhe falta alguma coisa para combatê-la, de tal sorte que, se permanecer na imobilidade, em um tempo dado ela estará infalivelmente ultrapassada. O que lhe falta, neste século de positivismo, quando se quer compreender antes de crer, é a sanção de suas doutrinas pelos fatos positivos; é também a concordância de certas doutrinas com os dados positivos da ciência. Se ela diz branco e os fatos dizem negro, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.

4. – É nesse estado de coisas que o Espiritismo vem opor um dique à invasão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela perspectiva de perigo que ela ocasiona, mas pelos fatos materiais, fazendo tocar o dedo e olhar a alma e a vida futura.


(1) Um jovem de 18 anos estava atacado por uma doença do coração, declarada incurável. A ciência havia dito: ele pode morrer em oito dias, como em dois anos, mas não passará disso. O jovem o sabia; logo deixa todo o estudo e se entrega aos excessos de todos os gêneros. Quando lhe ponderaram o quanto uma vida de desordem era perigosa na sua posição, ele respondeu: Que me importa, se não tenho senão dois anos para viver! De que me serviria fatigar meu espírito? Eu gozo o que me resta e quero me divertir até o fim. Eis a conseqüência lógica do nihilismo.

Se esse jovem fosse espírita, ele teria dito: a morte não destruirá senão o meu corpo, que deixarei como uma veste usada, mas meu Espírito viverá sempre. Serei, em minha vida futura, o que fiz de mim mesmo nesta; o que pude adquirir em qualidades morais e intelectuais não estará perdido, porque isso será igualmente aquisição para o meu adiantamento; toda imperfeição de que me despojar é um passo a mais para a felicidade; minha felicidade ou minha infelicidade futuras dependem da utilidade, ou da inutilidade, da minha existência presente. É, pois, do meu interesse aproveitar o pouco tempo que me resta, e evitar tudo o que poderia diminuir as minhas forças.

Qual dessas duas doutrinas é preferível?