O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO I - O FUTURO E O NADA 1288

Cada um é livre, sem dúvida, em sua crença, em crer em alguma coisa ou de não crer em nada; mas aqueles que procuram fazer prevalecer, no espírito das massas, da juventude sobretudo, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade do seu saber ou no ascendente da sua posição, semeiam na sociedade os germes da perturbação e da dissolução, e incorrem em uma grande responsabilidade.

5. – Há uma outra doutrina que nega ser materialista, porque admite a existência de um princípio inteligente fora da matéria, e é a da absorção no Todo Universal. Segundo esta doutrina, cada indíviduo assimila, ao nascer, uma parcela desse princípio, que constitui sua alma e lhe dá a vida, a inteligência e o sentimento. Na morte, essa alma retorna ao foco comum e se perde no infinito como uma gota d’água no Oceano.

Essa doutrina, sem dúvida, é um passo adiante sobre o materialismo puro, uma vez que admite alguma coisa, ao passo que a outra não admite nada, mas suas conseqüências são exatamente as mesmas. Que o homem seja mergulhado em o nada ou no reservatório comum, é a mesma coisa para ele; se, no primeiro caso, ele é aniquilado, no segundo perde sua individualidade; é, pois, como se ele não existisse mais; as relações sociais não estarão menos inteiramente rompidas. O essencial, para ele, é a conservação do seu eu; sem isso, que lhe importa ser ou não ser! O futuro, para ele, é sempre nulo, e a vida presente, a única coisa que lhe interessa e o preocupa. Do ponto de vista das suas conseqüências morais, essa doutrina é tão malsã, tão desesperadora, tão excitante do egoísmo quanto o materialismo propriamente dito.

6. – Por outro lado pode-se aí fazer a objeção seguinte: todas as gotas d´água tiradas do Oceano se assemelham e têm propriedades idênticas, como as partes de um mesmo todo; por que as almas, se são tiradas do grande oceano da inteligência universal se assemelham tão pouco? Por que o gênio ao lado da estupidez? As mais sublimes virtudes ao lado dos vícios os mais ignóbeis? A bondade, a doçura, a mansidão ao lado da maldade, da crueldade, da barbárie? Como as partes de um todo homogêneo podem ser tão diferentes umas das outras? Dir-se-á que é a educação que as modifica? Mas, então, de onde vêm as qualidades inatas, as inteligências precoces, os instintos bons e maus