O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO I - O FUTURO E O NADA 1290

satisfazer a razão e de dar conta de todos os fatos que ela abarca; se um só fato vier dar-lhe um desmentido, é que ela não está na verdade absoluta.

9. – Do ponto de vista moral, as conseqüências são também bastante ilógicas. É primeiro, para as almas, como no sistema precedente, a absorção num todo e a perda da individualidade. Se se admite, segundo a opinião de alguns panteístas, que elas conservam sua individualidade, Deus não tem mais vontade única; é um composto de miríades de vontades divergentes. Além disso, cada alma sendo parte integrante da Divindade, nenhuma é dominada por uma força superior; não incorre, por conseqüência, em nenhuma responsabilidade por seus atos bons ou maus; não tem nenhum interesse em fazer o bem e pode fazer o mal impunemente, uma vez que é senhora soberana.

10. – Além de que esses sistemas não satisfazem nem a razão nem a aspiração do homem, se tropeçam, como se vê, com dificuldades insuperáveis, porque são impotentes para resolverem todas as questões de fato que eles suscitam. O homem tem, pois, três alternativas: o nada, a absorção, ou a individualidade da alma antes e depois da morte. É para essa última crença que nos conduz, invencivelmente, a lógica; é aquela também que foi o fundo de todas as religiões desde que o mundo existe.

Se a lógica nos conduz à individualidade da alma, ela nos leva também a esta outra conseqüência: que a sorte de cada alma deve depender de suas qualidades pessoais, porque seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem e do homem perverso estivessem no mesmo nível que a do sábio e do homem de bem. Segundo a justiça, as almas devem ter a responsabilidade de seus atos; mas, para que sejam responsáveis, é preciso que estejam livres para escolher entre o bem e o mal; sem o livre arbítrio, há fatalidade, e com a fatalidade não poderia haver responsabilidade.

11. – Todas as religiões têm igualmente admitido o princípio da sorte feliz ou infeliz das almas depois da morte, ou, dito de outro modo, das penas e dos gozos futuros que se resumem na doutrina do céu e do inferno, que se encontra em toda parte. Mas, no que elas diferem essencialmente, é