O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO I - O FUTURO E O NADA 1291

sobre a natureza dessas penas e desses gozos, e sobretudo sobre as condições que possam merecer umas e outros. Daí os pontos de fé contraditórios que deram nascimento aos diferentes cultos, e os deveres particulares impostos, por estes, para honrar a Deus, e por esse meio ganhar o céu e evitar o inferno.

12. – Todas as religiões deveram, em sua origem, estar em relação com o grau de adiantamento moral e  intelectual dos homens; estes, muito materiais ainda para compreenderem o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram consistir a maioria dos deveres religiosos no cumprimento de formas exteriores. Durante um tempo, essas formas bastaram à sua razão; mais tarde, fazendo-se luz em seu Espírito, sentem o vazio que as formas deixam atrás de si, e se a religião não os satisfaz mais, abandonam a religião e se tornam filósofos.

13. Se    a   religião,   apropriada   a  princípio aos conhecimento limitados dos homens, houvesse sempre seguido o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na natureza do homem ter necessidade de crer, e ele crerá se se der um alimento espiritual em  harmonia   com   as   suas   necessidades intelectuais. Ele quer saber de onde veio e para onde vai; se se lhe mostra um objetivo que não responde nem às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, nem aos dados positivos que lhe fornece a ciência; além disso, se se lhe impõem atingir condições que sua razão não lhe demonstre a utilidade, ele repele o todo; o materialismo e o panteísmo lhe parecem ainda mais racionais, porque neles se discute e raciocina; raciocina-se falso, é verdade, mas ele gosta ainda mais de raciocinar falso do que não raciocinar de todo.

Mas, que se lhe apresente um futuro em condições lógicas, dignas, em todo ponto, da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele abandonará o materialismo e o panteísmo, dos quais sente o vazio em seu foro íntimo, e que não havia aceito senão por falta de coisa melhor. O Espiritismo dá mais, porque acolhe, com solicitude, todos aqueles atormentados pela incerteza dolorosa da dúvida e que não encontram, nem nas crenças nem nas filosofias vulgares, o que procuram; têm para si a lógica do raciocínio e a razão dos fatos e é por isso que o combatem inutilmente.