O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO II - TEMOR DA MORTE 1294

compreendendo melhor a sua missão na Terra, ele espera seu fim com mais calma, resignação e sem medo. A certeza da vida futura imprime um outro curso às suas idéias, um outro objetivo aos seus trabalhos; antes de ter essa certeza, ele não trabalha senão para a vida atual; com essa certeza, trabalha tendo em vista o futuro sem negligenciar o presente, porque sabe que o seu futuro depende da direção, mais ou menos boa, que dê ao presente. A certeza de encontrar seus amigos depois da morte, de continuar as relações que teve sobre a Terra, de não perder o fruto de nenhum trabalho, de crescer, sem cessar, em inteligência e em perfeição, lhe dá a paciência de esperar e a coragem de suportar a fadigas momentâneas da vida terrestre. A solidariedade que ele vê se estabelecer entre os mortos e os vivos faz-lhe compreender aquela que deve existir entre os vivos; a fraternidade, desde então, tem sua razão de ser, e a caridade um objetivo, no presente e no futuro.

4. – Para se livrar dos temores da morte é preciso poder encará-la sob o seu verdadeiro ponto de vista, quer dizer, penetrar, pelo pensamento, no mundo espiritual e dele fazer uma idéia tão exata quanto possível, o que denota, no Espírito encarnado, um certo desenvolvimento e uma certa aptidão para se desligar da matéria. Entre os que não estão suficientemente avançados, a vida material domina, ainda, sobre a vida espiritual.

O homem, apegando-se ao exterior, não vê a vida senão no corpo, ao passo que a vida real está na alma; estando o corpo privado de vida, aos seus olhos tudo está perdido, e ele se desespera. Se, em lugar de concentrar seu pensamento sobre a veste exterior, ele o dirigisse para a própria fonte da vida: para a alma, que é um ser real sobrevivente a tudo, lamentaria menos o corpo, fonte de tantas misérias e dores; mas, para isso, é preciso uma força que o Espírito não adquire senão com a maturidade.

O temor da morte prende-se, pois, à insuficiência de noções sobre a vida futura; mas denota a necessidade de viver, e o medo de que a destruição do corpo seja o fim de tudo; ele é, assim, provocado pelo secreto desejo da sobrevivência da alma, velado ainda pela incerteza.

O temor se enfraquece à medida que a certeza se forma; ele desaparece quando a certeza se completa.