O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO II - TEMOR DA MORTE 1296

que expiam, nas torturas e nas chamas sem fim, seus erros de um momento; para quem os séculos sucedem aos séculos sem esperança de alívio ou de piedade; e, o que é mais implacável ainda, para quem o arrependimento não tem eficácia. De outro lado, as almas lânguidas e sofredoras do purgatório, esperando a sua libertação na boa vontade dos vivos que oram ou façam orar por elas, e não dos seus esforços para progredirem. Essas duas categorias compõem a imensa maioria da população do outro mundo. Acima desse plano, o muito restrito dos eleitos, gozando, durante a eternidade, de uma beatitude contemplativa. Essa eterna inutilidade, preferível, sem dúvida, ao nada, não lhes é menos de uma fastidiosa monotonia. Também vêem-se, nas pinturas que retratam os bem-aventurados, figuras angélicas, mas que respiram antes o tédio do que a verdadeira felicidade.

Esse estado não satisfaz nem as aspirações nem a idéia instintiva do progresso que só parece compatível com a felicidade absoluta. Mal se pode conceber que o selvagem ignorante, de senso moral obtuso, pelo único fato de ter recebido o batismo, esteja no mesmo nível daquele que chegou ao mais alto grau da ciência  e  da  moralidade  prática, depois de longos anos de trabalho. É ainda menos concebível que a criança morta em tenra idade, antes de ter a consciência de si mesma e de seu atos, goze dos mesmos privilégios, pelo único fato de uma cerimônia na qual a sua vontade não tem  nenhuma  parte.  Esses  pensamentos não deixam de agitar os mais fervorosos, por pouco que reflitam.

7. – O trabalho progressivo que se cumpre na Terra, não sendo nada na felicidade futura, a facilidade com a qual eles crêem adquirir essa felicidade por meio de algumas práticas exteriores, a possibilidade mesma de comprá-la a preço de dinheiro, sem reforma séria do caráter e dos hábitos, deixam aos gozos do mundo todo o seu valor. Mais de um crente se diz, em seu foro íntimo, que, já que o seu futuro está assegurado pelo cumprimento de certas fórmulas, ou por dons póstumos que não privam de nada, seria supérfluo impor-se sacrifícios ou qualquer constrangimento em proveito de outro, desde que se pode chegar à salvação trabalhando cada  um por si.

Seguramente, tal não é o pensamento de todos, porque