O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO II - TEMOR DA MORTE 1297

há grandes e belas exceções; mas não se pode dissimular que esta não seja a mais numerosa, sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a idéia que se faz das condições para ser feliz no outro mundo não mantém o apego aos bens deste, e, por conseqüência, o egoísmo.

8. – Acrescentemos, a isso, que tudo, nos hábitos, concorre para fazer lamentar a vida terrestre e temer a passagem da Terra para o céu. A morte não é cercada senão de cerimônias lúgubres que aterrorizam mais do que provocam a esperança. Se se representa a morte, é sempre sob o aspecto repulsivo, e jamais como um sono de transição; todos esses emblemas lembram a destruição do corpo, mostram-no horrendo e descarnado; nenhum simboliza a alma se livrando radiosa dos seus laços terrestres. A partida, para este mundo mais feliz, não é acompanhada senão de lamentações dos sobreviventes, como se acontecesse a maior infelicidade àqueles que se vão; se lhes diz um eterno adeus, como se jamais se devesse revê-los; o que se lamenta por  eles  são os gozos deste mundo, como se não devessem encontrá-los maiores. Que infelicidade, diz-se, em morrer quando se está jovem, rico, feliz e que se tem, diante de si, um futuro brilhante! A idéia de uma situação mais feliz aflora com dificuldade no pensamento, porque não tem aí raízes. Tudo concorre, pois, para inspirar o frio da morte em lugar de fazer nascer a esperança. O homem terá longo tempo, sem dúvida, para se desfazer dos seus preconceitos, mas a isso chegará à medida que a sua fé se afirme, que se faça uma idéia mais sadia da vida espiritual.

9. – A crença vulgar coloca, por outro lado, as almas em regiões acessíveis, com dificuldade, ao pensamento, onde elas se tornam, de alguma forma, estranhas aos sobreviventes; a própria Igreja coloca, entre elas e estes últimos, uma barreira intransponível: ela declara que toda relação está rompida, toda comunicação é impossível. Se estão no inferno, a esperança de revê-las está para sempre perdida, a menos que para lá se vá por si mesmo; se estão entre os eleitos, estão completamente absorvidas pela beatitude contemplativa. Tudo isso coloca entre os mortos e os vivos uma tal distância, que se considera a separação como eterna; por isso se prefere ainda ver junto de si, sofrendo na Terra, os seres que se ama,  a   vê-los  partir,  mesmo  para  o  céu.  Aliás,  a  alma