O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO III - O CÉU 1299

CAPÍTULO III

O CÉU

1. – A palavra céu se diz, em geral, do espaço indefinido que circunda a Terra, e mais particularmente da parte que está acima do nosso horizonte; ela vem do latim coelum, formado do grego coïlos, oco, côncavo, porque o céu parece, aos olhos, como uma imensa concavidade. Os Antigos acreditavam na existência de vários céus superpostos, compostos de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas das quais a Terra era o centro. Essas esferas, girando ao redor da Terra, arrastavam consigo os astros que se encontrassem em seu circuito.

Essa idéia, que se prendia à insuficiência de conhecimentos astronômicos, foi a de todas as teogonias que fizeram dos céus, assim escalonados, os diversos graus de beatitude; o último era a morada da suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete deles; daí a expressão: Estar no sétimo céu, para exprimir uma felicidade perfeita. Os Muçulmanos admitem nove deles, em cada um dos quais aumenta a felicidade dos crentes. O astrônomo Ptolomeu (1) contou onze, dos quais o último era chamado Empíreo (2), por causa da ofuscante luz que aí reina. É ainda hoje o nome poético dado ao lugar da glória eterna. A teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo é o espaço onde se movem os astros; o terceiro, além da região dos astros, é a morada do Mais Alto, a região dos eleitos que contemplam a Deus face


(1) Ptolomeu viveu em Alexandria, no Egito, no segundo século da Era Cristã.

(2) do grego pur ou pyr, fogo.