O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO III - O CÉU 1303

pela atividade que está obrigado a desdobrar no trabalho; ao progresso moral, pela necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso, tem por móvel, por objetivo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. Para o homem que vivesse sozinho, não haveria nem vícios nem virtudes; se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, anula o bem.

9. – Uma só existência corporal é manifestamente insuficiente para que o Espírito possa adquirir tudo o que lhe falta em bem, e se desfazer de tudo o que há de mal em si. O selvagem, por exemplo, poderia, em uma só encarnação, alcançar o nível moral e intelectual do Europeu, mais avançado? Isso é materialmente impossível. Deve, pois, permanecer eternamente na ignorância e na barbárie, privado dos gozos que só o desenvolvimento das faculdades pode proporcionar? O simples bom senso repele uma tal suposição, que seria, ao mesmo tempo, a negação da justiça e da bondade de Deus e da lei progressiva da Natureza. Por isso Deus, que é soberanamente justo e bom, concede ao Espírito do homem tantas existências quantas sejam necessárias para atingir o objetivo, que é a perfeição.

Em cada nova existência, o Espírito leva o que adquiriu, nas precedentes, em aptidões, em conhecimentos intuitivos, em inteligência e moralidade. Cada existência é, assim, um passo adiante no caminho do progresso. (1)

A encarnação é inerente à inferioridade dos Espíritos; ela não é mais necessária àqueles que lhe ultrapassaram o limite e progridem no estado espiritual ou nas existências corporais de mundos superiores que não têm nada mais da materialidade terrestre. Da parte destes, ela é voluntária, tendo em vista exercer, sobre os encarnados, uma ação mais direta para o cumprimento da missão da qual estão encarregados junto deles. Aceitam as vicissitudes e os sofrimentos por devotamento.

10. ­ No intervalo das existências corporais, o Espírito


(1) Ver a nota do cap. I, nº 3, nota 1.