O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1310

CAPÍTULO IV

O INFERNO

 

Intuição das penas futuras. – O inferno cristão imitado do inferno pagão. – Os limbos. – Quadro do

inferno pagão. – Quadro do inferno cristão.

INTUIÇÃO DAS PENAS FUTURAS

1. – Em todos os tempos, o homem acreditou, por intuição, que a vida futura deveria ser feliz ou infeliz, em razão do bem ou do mal que se faz neste mundo; apenas a idéia que disso faz está em relação com o desenvolvimento do seu senso moral, e as noções, mais ou menos justas, que tem do bem e do mal; as penas e as recompensas são o reflexo dos seus instintos predominantes. Assim é que os povos guerreiros colocam a sua suprema felicidade nas honras prestadas à bravura; os povos caçadores, na abundância da caça; os povos sensuais, nas delícias da volúpia. Enquanto o homem está dominado pela matéria, não pode senão imperfeitamente compreender a espiritualidade, e é por isso que ele faz, das penas e dos gozos futuros, um quadro mais material do que espiritual; ele imagina que se deve beber e comer no outro mundo, mas melhor do que na Terra, e de melhores coisas (1). Mais tarde, encontra-se nas crenças acerca do futuro, uma mistura de espiritualidade e de materialidade; é assim que, ao lado da beatitude contemplativa, coloca o inferno com torturas físicas.

2. – Não podendo conceber senão o que via, o homem primitivo, naturalmente, decalcou seu futuro sobre o presente;


(1) Um pequeno saboiano, a quem seu cura fazia um quadro sedutor da vida futura, lhe pergunta se todo o mundo aí comia pão branco, como em Paris.