O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1311

para compreender outros tipos além daqueles que tinha sob os olhos, lhe seria preciso um desenvolvimento intelectual que não deveria chegar senão com o tempo. Também o quadro que se faz dos castigos da vida futura não é senão o reflexo dos males da Humanidade, mas em mais larga proporção; reuniu todas as torturas, todos os suplícios, todas as aflições que encontra sobre a Terra; é assim que, nos climas quentes imaginou um inferno de fogo, e nas regiões boreais, um inferno de gelo. Não estando ainda desenvolvido o sentido que deveria fazê-lo compreender o mundo espiritual, não podia conceber senão penas materiais; por isso, com algumas diferenças apenas de forma, os infernos de todas as religiões se assemelham.

O INFERNO CRISTÃO IMITADO DO INFERNO PAGÃO.

3. – O Inferno dos Pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo mais grandioso do gênero; ele está perpetuado no dos Cristãos, que, também ele, teve seus cantores poéticos. Comparando-os, neles se encontram, salvo os nomes de algumas variantes nos detalhes, numerosas analogias: em um e em outro, o fogo material é a base dos tormentos, porque é o símbolo dos mais cruéis sofrimentos. Mas, coisa estranha! os Cristãos têm, sobre muitos pontos, exagerado o inferno dos Pagãos. Se estes últimos tinham, nos seus, o tonel das Danaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo, esses eram suplícios individuais; o inferno cristão tem para todos as suas caldeiras ferventes, das quais os anjos erguem a tampa para ver as contorções dos condenados (1); Deus ouve, sem piedade, os gemidos destes durante a eternidade. Jamais os Pagãos descreveram os habitantes dos Campos Elíseos entretendo a sua visão com os suplícios do Tártaro. (2)

4. – Do mesmo modo que os Pagãos, os Cristãos têm o seu rei do inferno, que é Satã, com a diferença de que Plutão se limitava a governar o império sombrio que lhe foi dado em


(1) Sermão proferido em Montepellier, em 1860.

(2) "Os bem-aventurados, sem saírem do lugar que ocupam, dele sairão, entretanto, de uma certa maneira, em razão de seu dom de inteligência e de visão distinta, a fim de considerarem as torturas dos condenados; e, vendo-os, não somente não sentirão nenhuma dor, mas serão cobertos de alegria, e renderão graças a Deus por sua própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios." (São Tomás de Aquino.)