O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1313

dos seus conhecimentos. Jesus se encontrava, pois, na impossibilidade de iniciá-los no verdadeiro estado das coisas; mas, por outro lado, não querendo sancionar, com a sua autoridade, os preconceitos existentes, absteve-se, deixando ao tempo o cuidado de retificar as idéias. Limitou-se a falar, vagamente, da vida feliz e dos castigos que esperam os culpados; mas, em nenhuma parte, em seus ensinamentos, encontra-se o quadro de suplícios corporais dos quais os Cristãos fizeram artigo de fé.

Eis como as idéias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos dias. Foi preciso a difusão das luzes nos tempos modernos, e o desenvolvimento geral da justiça humana para lhes fazer justiça. Mas, então, como nada de positivo havia substituído as idéias existentes, ao longo período de uma crença cega sucedeu, como transição, o período de incredulidade, ao qual a nova revelação veio colocar um fim. Era preciso demolir antes de reconstruir, porque é mais fácil fazer aceitar as idéias justas àqueles que não crêem em nada, porque sentem que lhes falta alguma coisa, do que àqueles que têm uma fé robusta no que é absurdo.

7. – Para localização do céu e do inferno, as seitas cristãs foram conduzidas a não admitirem, para as almas, senão duas situações extremas: a perfeita felicidade e o sofrimento absoluto. O purgatório é apenas uma posição intermediária momentânea ao saírem da qual passam, sem transição, para a morada dos bem-aventurados. Não poderia ser de outro modo, segundo a crença na sorte definitiva da alma depois da morte. Não há senão duas moradas, a dos eleitos e a dos condenados, não se podem admitir vários graus em cada uma, sem a possibilidade de franqueá-los e, por conseqüência, de progresso; ora, se há progresso não há sorte definitiva; se há sorte definitiva, não há progresso. Jesus resolveu a questão quando disse: "Há várias moradas na casa de meu Pai. (1)"

OS LIMBOS

8. – A Igreja admite, é verdade, uma posição especial em certos casos particulares. As crianças mortas em tenra idade, não tendo feito mal, não podem ser condenadas ao


(1) O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III.