O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1314

fogo eterno; por outro lado, não tendo feito o bem, não têm nenhum direito à felicidade suprema. Estão então, diz ela, nos limbos, sofrem, nem gozam da perfeita felicidade. Mas, uma vez que a sua sorte está irrevogavelmente fixada, estão privadas dessa felicidade pela eternidade. Essa privação uma vez que não dependeu delas que fosse de outro modo, equivale a um suplício eterno imerecido. Ocorre o mesmo com os selvagens que, não tendo recebido a graça do batismo e as luzes da religião, pecam por ignorância entregando-se aos seus instintos naturais, não podendo ter nem a culpabilidade nem os méritos daqueles que puderam agir com conhecimento de causa. A simples lógica repele semelhante doutrina em nome da justiça de Deus. A justiça de Deus está inteiramente nestas palavras do Cristo: a cada um segundo as suas obras; mas é preciso entendê-lo como as obras boas ou más que realizaram livremente, voluntariamente, as únicas nas quais incorreram em responsabilidades, o que não é o caso nem da criança, nem do selvagem, nem daquele de quem não dependeu o estar esclarecido.

QUADRO DO INFERNO PAGÃO

9. – Conhecemos pouco o inferno pagão e apenas pela descrição dos poetas; Homero e Virgílio deram, dele, a descrição mais completa, mas é preciso apartar as necessidades que a poesia impôs à forma. A de Fénelon, em seu Telêmaco, embora haurida na mesma fonte, quanto às crenças fundamentais, tem a simplicidade mais precisa da prosa. Descrevendo o aspecto lúgubre dos lugares, procura sobretudo ressaltar o gênero de sofrimentos que sofrem os culpados, e se estende muito sobre a sorte dos maus reis, tendo em vista a instrução de seu aluno real. Por popular que seja a sua obra, muitas pessoas não têm, sem dúvida, essa descrição bastante presente na memória, ou não puderam refletir bastante nela para estabelecerem uma comparação; por isso, cremos ser útil reproduzir-lhe as partes que têm uma relação mais direta com o objetivo que nos ocupa, quer dizer, as que concernem, mais especialmente, à penalidade individual.

10. – "Entrando, Têlemaco ouve os gemidos de uma sombra que não podia se consolar. Qual é, pois, disse-lhe, a