O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1322

devem ressuscitar no último dia, e retomarem, para não mais deixá-lo, um corpo carnal, o mesmo corpo sob o qual foram conhecidos entre os vivos. O que os distinguirá, uns dos outros, será que os eleitos ressuscitarão em um corpo purificado e todo radioso, os condenados em um corpo enlameado e deformado pelo pecado. Não haverá, pois, no inferno, apenas Espíritos puros; haverá homens tais como nós.  O inferno é, por conseguinte, um lugar físico, geográfico, material, uma vez que estará povoado de criaturas terrestres, tendo pés, mãos, uma  boca, uma língua, dentes, ouvidos, olhos semelhantes aos nossos, sangue nas veias e nervos sensíveis à dor.

"Onde está situado o inferno? Alguns doutores colocaram-no nas próprias entranhas da nossa Terra; outros, não sei em qual planeta; mas a questão não foi decidida por nenhum concílio. Está-se, pois, sobre esse ponto, reduzido a conjecturas; a única coisa que se afirma é que o inferno, em qualquer lugar que esteja situado, é um mundo composto de elementos materiais, mas um mundo sem Sol, sem Lua, sem estrelas, mais triste, mais inóspito, mais desprovido de todo germe e de toda aparência do bem do que o são as partes mais inabitáveis deste mundo onde nós pecamos.

"Os teólogos circunspectos não se arriscam a pintarem, à maneira dos Egípcios, dos Hindus e dos Gregos, todos os horrores dessa morada; limitam-se a mostrar, como um modelo, o pouco que a Escritura dele revela, o lago de fogo e de enxofre do Apocalipse e os vermes de Isaías, esses vermes eternamente formigando sobre as carcaças do Tofel, e os demônios atormentando os homens aos quais perderam, e os homens chorando e rangendo os dentes, segundo a expressão dos Evangelistas.

"Santo Agostinho não concorda que essas penas físicas sejam simples imagens de penas morais; ele vê, num verdadeiro lago de enxofre, os vermes e as serpentes verdadeiras encarniçarem-se sobre todas as partes do corpo dos condenados e unindo suas mordeduras às do fogo. Ele pretende, segundo um versículo de São Marcos, que esse fogo estranho, embora material igual ao nosso, e agindo sobre os corpos materiais, os conservará como o sal conserva a carne das vítimas. Mas os condenados, vítimas sempre sacrificadas e sempre vivas, sentirão a dor desse fogo que queima sem destruir; ele penetrará sob sua pele; estarão dele embebidos e saturados em todos os seus membros, na medula de seus