O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1324

"Isso não era, sem dúvida, senão um pequeno canto do inferno. Outros viajores espirituais foram mais favorecidos.

Viram um inferno de grandes cidades ardendo em fogo; Babilônia e Nínive, e mesmo Roma, seus palácios e seus templos abrangidos, e todos os seus habitantes acorrentados; o traficante em seu balcão, os sacerdotes reunidos com seus cortesãos nas salas de festins, ululando em suas cadeiras, das quais não poderiam mais se afastar, elevando aos seus lábios, para se saciarem, copos dos quais saíam chamas; lacaios ajoelhados nas cloacas ferventes, braços estendidos, e príncipes de cujas mãos se derramava, sobre eles, lava devoradora de ouro fundido. Outros viram, no inferno, planícies sem limites que camponeses famintos cavavam e semeavam, e, nessas planícies fumegantes, com seus suores, suas sementes estéreis, como não produzissem nada, esses camponeses se entredevoravam; depois, tão numerosos como antes, tão magros, tão famintos, eles se dispersavam, por bandos, no horizonte, indo procurar, ao longe, mas em vão, terras mais felizes, logo substituídos, nos campos que abandonavam, por outras colônias errantes de condenados. Há quem viu no inferno montanhas cheias de precipícios, florestas gementes, poços sem água, fontes alimentadas por lágrimas, rios de sangue, turbilhões de neve nos desertos de gelo, barcos de desesperados vagando sobre os mares sem margem. Revia-se ali, em uma palavra, tudo o que os Pagãos viram: um reflexo lúgubre da Terra, uma sombra desmesuradamente aumentada de suas misérias, seus sofrimentos naturais eternizados, e até os calabouços e instrumentos de suplício, instrumentos de tortura que nossas próprias mãos forjaram.

"Há, ali embaixo, com efeito, demônios que, para melhor atormentarem os homens em seus corpos, tomam corpos. Estes têm asas de morcego, cornos, couraças de escamas, patas providas de garras, dentes afiados; são-nos mostrados armados de gládios, de forcas, de pinças, de tenazes ardentes, de serras, de grades, de foles, de clavas, e fazendo, durante a eternidade, com a carne humana, o serviço de cozinheiro e de açougueiro; aqueles, transformados em leões ou víboras enormes, arrastam suas presas para cavernas solitárias; alguns se transformam em corvos para arrancarem os olhos a certos culpados, e, outros, em dragões voadores, para carregá-los sobre seus ombros e transportá-los, muito assustados, muito sangrentos, gritando através dos