O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO 1329

sensatos que não admitem essas coisas ao pé da letra, e que não vêem aí senão alegorias das quais é preciso apreender o espírito; mas sua opinião não é senão individual e não faz lei. A crença no inferno material, com todas as suas conseqüências, não deixa de ser um artigo de fé.

15. – Pergunta-se de que modo os homens puderam ver essas coisas no êxtase, se elas não existem. Aqui não é o lugar para se explicar a fonte das imagens fantásticas que se produzem, às vezes, com as aparências da realidade. Diremos somente que é preciso ver nisso uma prova desse princípio: que o êxtase é a menos segura de todas revelações (1), porque esse estado de superexcitação não é sempre o fato de um desligamento da alma tão completo como se poderia crer, e que neles se encontra, bem freqüentemente, o reflexo das preocupações da vigília. As idéias, das quais o Espírito está nutrido, e das quais o cérebro, ou melhor, o envoltório perispiritual correspondente ao cérebro, conservou a imagem, se reproduzem amplificadas como em uma miragem, sob formas vaporosas que se cruzam e se confundem, e compõem conjuntos bizarros. Os extáticos de todos os cultos viram sempre coisas em relação com a fé da qual estavam penetrados; não é surpreendente, pois, que aqueles que, semelhantes à Santa Teresa, estão fortemente imbuídos de idéias do inferno, tais como que lhes dão as descrições verbais ou escritas e os quadros, tenham visões que não são, propriamente falando, senão a sua reprodução, e produzem o efeito de um pesadelo. Um Pagão, cheio de fé, teria visto o Tártaro e as Fúrias, como teria visto, no Olimpo, Júpiter tendo o raio na mão.


(1) O Livro dos Espíritos, nºs 443 e 444.