O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO V - O PURGATÓRIO 1330

CAPÍTULO V

O PURGATÓRIO

1. – O Evangelho não faz nenhuma menção ao purgatório, que não foi admitido pela Igreja senão no ano 593. É, seguramente, um dogma mais racional e mais conforme a justiça de Deus do que o do inferno, uma vez que estabelece penas menos rigorosas e resgatáveis, por faltas de uma menor gravidade.

O princípio do purgatório está, pois, fundado na eqüidade, porque, comparado à justiça humana, é a detenção temporária ao lado da condenação à perpetuidade. O que se pensar de um país que não tivesse senão a pena de morte para os crimes e os mais simples delitos? Sem o purgatório, não há para as almas senão duas alternativas extremas: a felicidade absoluta ou o suplício eterno. Nessa hipótese, em que se tornam as almas culpadas somente por faltas leves? Ou elas participam da felicidade dos eleitos sem serem perfeitas, ou sofrem o castigo dos maiores  criminosos sem terem feito muito mal, o que  não  seria  nem justo  nem  racional.

2. – Mas a noção do purgartório devia, necessariamente, ser incompleta; é por isso que, não se conhecendo senão a pena do fogo, fez-se dele um diminutivo do inferno; as almas aí também ardem, mas num fogo menos intenso. Sendo o progresso inconciliável com o dogma das penas eternas, as almas dele não saem em conseqüência do seu adiantamento, mas pela virtude das preces que se dizem ou que fazem dizer em sua intenção.

Se o primeiro pensamento foi bom, não ocorreu o mesmo com as suas conseqüências, pelo abuso do qual foi a