O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO V - O PURGATÓRIO 1331

fonte. Através da preces pagas, o purgatório tornou-se uma mina mais produtiva do que o inferno (1).

3. – O lugar do purgatório nunca foi determinado, nem a natureza das penas, que aí são suportadas, foram claramente definidas. Estava reservado à nova revelação preencher essa lacuna, explicando-nos as causas das misérias da vida terrestre, das quais só a pluralidade das existências podia nos mostrar a justiça.

Essas misérias são, necessariamente, a conseqüência das imperfeições da alma, porque se a alma fosse perfeita não cometeria faltas e não teria as suas conseqüências a suportar. O homem, que seria sóbrio e moderado em tudo, por exemplo, não seria vítima das doenças que os excessos engendram. O mais freqüentemente, é infeliz, neste mundo, por sua própria falta; mas se é imperfeito, é porque o era antes de vir para a Terra; nela expia não somente as suas faltas atuais, mas as faltas anteriores que não foram reparadas; ele suporta, em uma vida de provas, o que fez os outros suportarem em uma outra existência. As vicissitudes que experimenta são, ao mesmo tempo, um castigo temporário e uma advertência das imperfeições, das quais deve se desfazer, para evitar as infelicidades futuras e progredir no bem. Essas são, para a alma, as lições da experiência, lições por vezes rudes, mas tanto mais aproveitáveis para o futuro quanto deixem a mais profunda impressão. Essas vicissitudes são a ocasião de lutas incessantes que desenvolvem suas forças e suas faculdades, morais e intelectuais, a fortificam no bem, e das quais ela sai sempre vitoriosa, se tem a coragem de sustentá-las até o fim. O prêmio da vitória está na vida espiritual, onde entra radiosa e triunfante, como soldado que sai da refrega e vem receber a palma gloriosa.

4. – Cada existência é, para a alma, a oportunidade de um passo adiante; de sua vontade depende que esse passo seja o maior possível, de vencer vários escalões ou permanecer no mesmo ponto; neste último caso, sofreu sem proveito; e como é preciso sempre, cedo ou tarde, pagar  sua dívida, ser-lhe-á preciso recomeçar uma nova existência, em condições


(1) O purgatório deu nascimento ao comércio escandaloso das indulgências, com a ajuda das quais vendia-se a entrada no céu. Esse abuso foi a causa primeira da Reforma, e foi o que fez Lutero rejeitar o purgatório.