O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1336

3. – Quanto mais os homens estão próximos do estado primitivo, tanto mais são materiais; o senso moral é o que se desenvolve neles o mais tardiamente. Por essa mesma razão, não podem fazer senão uma idéia muito imperfeita de Deus e dos seus atributos, e uma não menos vaga da vida futura. Assemelham Deus à sua própria natureza; é para eles um soberano absoluto, tanto mais temível porque é invisível, igual a um monarca despótico, oculto em seu palácio, que não se mostra nunca aos seus súditos. Ele não é poderoso senão pela força material, porque não compreendem a força moral; não o vêem senão armado do raio, no meio de relâmpagos e tempestades, semeando, na sua passagem, a ruína e a desolação, a exemplo dos guerreiros invencíveis. Um Deus de mansuetude e de misericórdia não seria um Deus, mas um ser fraco que não poderia fazer-se obedecer. A vingança implacável, os castigos terríveis, eternos, não tinham nada em contrário à idéia que faziam de Deus, nada que lhes repugnasse à razão. Implacáveis, eles mesmos, em seus ressentimentos, cruéis para com seus inimigos, sem piedade para com os vencidos, Deus, que lhes era superior, deveria ser ainda mais terrível.

Para tais homens, seriam precisas crenças religiosas assimiladas à sua natureza ainda rude. Uma religião muito espiritual, toda de amor e de caridade, não poderia se aliar com a brutalidade dos costumes e das paixões. Não censuremos, pois, a Moisés pela sua legislação draconiana, que teve dificuldade para conter o seu povo indócil, nem de ter feito de Deus um Deus vingativo. Era necessário, nessa época; a doce doutrina de Jesus poderia não encontrar eco e teria sido ineficaz.

4. – À medida que o Espírito foi se desenvolvendo, o véu material, pouco a pouco, se dissipou, e os homens se tornaram mais aptos para compreenderem as coisas espirituais; mas a isso não se chegou senão gradualmente. Quando Jesus veio, pôde anunciar um Deus clemente, falar de seu reino que não é deste mundo, e dizer aos homens: "Amai-vos uns aos outros, fazei o bem àqueles que vos odeiam;" ao passo que os Antigos diziam: "Olho por olho, dente por dente."

Ora, quais eram os homens que viveram ao tempo de Jesus? Eram almas criadas novas e encarnadas? Se assim fora, Deus teria, pois, criado ao tempo de Jesus almas mais avançadas que ao tempo de Moisés. Mas, então, em que se