O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1337

tornaram essas últimas? Teriam se arrastado, durante a eternidade, no embrutecimento? O simples bom senso recusa essa suposição. Não; eram as mesmas almas que, depois de viverem sob o império da lei mosaica, haviam, durante várias existências, adquirido conhecimento suficiente para compreenderem uma doutrina mais elevada, e que hoje estão bastante avançadas para receberem conhecimento ainda mais completo.

5. – Entretanto, o Cristo não pôde revelar aos seus contemporâneos, todos os mistérios do futuro; ele mesmo disse: "Teria ainda muitas coisas a vos dizer, mas não as compreenderíeis; por isso vos falo por parábolas." Sobre tudo o que diz respeito à moral, quer dizer, aos deveres de homem a homem, foi muito explícito, porque, tocando a corda sensível da vida material, sabia ser compreendido; sobre os outros pontos, limitou-se a semear, sob forma alegórica, os germes daquilo que deveria ser desenvolvido mais tarde.

A doutrina das penas e das recompensas futuras pertence a essa última ordem de idéias. A respeito das penas, sobretudo, não poderia romper, de repente, com as idéias recebidas. Veio trazer aos homens novos deveres: a caridade e o amor ao próximo, substituindo o espírito de ódio e de vingança, a abnegação substituindo o egoísmo; isso já era muito; não podia, racionalmente, abrandar o temor ao castigo reservado aos prevaricadores, sem enfraquecer, ao mesmo tempo, a idéia do dever. Prometia o reino dos céus aos bons; esse reino estava, pois, interditado aos maus; para onde iriam eles? Seria preciso uma contrapartida de natureza a impressionar inteligências ainda muito materiais para se identificarem com a vida espiritual; porque não se deve perder de vista que Jesus se dirigia ao povo, à parte menos esclarecida da sociedade, para a qual seriam necessárias imagens, de alguma sorte, palpáveis, e não idéias sutis. Por isso não entrou, a esse respeito, em detalhes supérfluos: bastou-lhe opor uma punição à recompensa; não seria preciso mais naquela época.

6.– Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, ameaçou-os também de serem atirados à Geena; ora, o que era a Geena? Um lugar nas proximidades de Jerusalém, um depósito onde se atiravam as imundícies da cidade. Seria preciso, pois, também tomar isso ao pé da letra? Era uma