O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1338

dessas figuras enérgicas, com ajuda das quais ele impressionava as massas. Não ocorria o mesmo com o fogo eterno. Se tal não tivera sido seu pensamento, estaria em contradição

consigo mesmo exaltando a clemência e a misericórdia de Deus, porque a clemência e a inexorabilidade são contrários que se anulam. Seria, pois, equivocar-se estranhamente sobre o sentido das palavras de Jesus, vendo-se nelas a sanção do dogma das penas eternas, enquanto todo o seu ensinamento proclama a mansuetude do Criador.

Na Oração dominical, nos ensina a dizer: "Senhor, perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos àqueles que nos ofenderam." Se o culpado não tivesse nenhum perdão a esperar, seria inútil pedi-lo. Mas esse perdão não tem condições? É uma graça, uma remissão pura e simples da pena incorrida? Não; a medida desse perdão está subordinada à maneira pela qual seremos perdoados; quer dizer, que se nós não perdoamos, não seremos perdoados. Deus, fazendo, do esquecimento das ofensas, uma condição absoluta, não poderia exigir que o homem fraco fizesse o que ele, todo-poderoso, não faria. AOração dominical é um protesto diário contra a eterna vingança de Deus.

7. – Para os homens, que não tinham senão uma noção confusa da espiritualidade da alma, a idéia do fogo material não tinha nada de chocante, tanto menos que ela estava na crença vulgar tirada da do inferno dos Pagãos, quase universalmente difundida. A eternidade da pena não tinha mais nada que repugnasse a essa gente submissa, há séculos, à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus, o fogo eterno não poderia ser, pois, senão uma figura; pouco lhe importava que essa figura fosse tomada ao pé da letra, se devia servir de freio; sabia bem que o tempo e o progresso deveriam se encarregar de fazer compreender o seu sentido alegórico, sobretudo porque, segundo a sua predição, o Espírito de Verdade viria esclarecer os homens sobre todas as coisas.

O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento; ora, Jesus jamais disse que o arrependimento não encontraria graça diante de Deus. Em toda oportunidade, ao contrário, mostra Deus clemente, misericordioso, prestes a receber o filho pródigo de volta ao teto paterno. Não o mostra inflexível senão para o pecador endurecido; mas se tem o castigo numa das mãos, na outra tem