O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1339

sempre o perdão prestes a se estender sobre o culpado, desde que se volte, sinceramente, a ele. Este não é, certamente, o quadro de um Deus sem piedade. Há que se notar, também, que Jesus não pronunciou contra ninguém, mesmo contra os maiores culpados, condenação irremissível.

8. – Todas as religiões primitivas, de acordo com o caráter dos povos, tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. O Jeová dos Hebreus lhes fornecia mil meios de exterminarem seus inimigos; recompensava-os pela vitória ou punia-os pela derrota. Segundo a idéia que se fazia de Deus, acreditava-se honrá-lo ou apaziguá-lo com o sangue dos animais ou dos homens: daí os sacrifícios ensangüentados que desempenharam tão grande papel em todas as religiões antigas. Os Judeus haviam abolido os sacrifícios humanos; os Cristãos, malgrado os ensinamentos do Cristo, acreditaram, por longo tempo, honrar o Criador, entregando-se, por milhares, à chama e às torturas, aqueles a quem chamavam heréticos; eram, sob uma outra forma, verdadeiros sacrifícios humanos, uma vez que o faziam para maior glória de Deus, e com o acompanhamento de cerimônias religiosas. Hoje mesmo, invocam ainda o Deus dos exércitos antes do combate e o glorificam depois da vitória, e isso, freqüentemente, para as causas mais injustas e as mais anti-cristãs.

9. – Quanto o homem é lento para se desfazer dos seus preconceitos, dos seus hábitos, das suas idéias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés, e nossa geração cristã vê ainda traços dos antigos usos bárbaros consagrados, ou, pelo menos, aprovados pela religião atual! Foi preciso o poder da opinião dos não-ortodoxos daqueles que foram considerados heréticos, para pôr termo às fogueiras, e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, à falta das fogueiras, as perseguições materiais e morais estão ainda em pleno vigor, assim como a idéia de um Deus cruel está arraigada no homem. Alimentado pelos sentimentos que lhe foram inculcados na infância, pode o homem se espantar de que o Deus que se lhe apresenta, como honrado por atos bárbaros, condene a torturas eternas, e veja, sem piedade, os sofrimentos dos condenados?

Sim, são filósofos, ímpios, segundo alguns, que se escandalizam em verem o nome de Deus profanado por atos indignos dele; são aqueles que o mostraram, aos homens, em to-