O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1340

da a sua grandeza, despojando-o das paixões e das baixezas humanas que lhe dispensava uma crença não esclarecida. A religião ganhou em dignidade o que perdeu em prestígio exterior; porque se há menos homens presos à forma, há mais deles que são, mais sinceramente, religiosos pelo coração e pelos sentimentos.

Mas, ao lado destes, quantos que, permanecendo na superfície, foram conduzidos à negação de toda providência? Por falta de ter considerado oportunamente as crenças religiosas em harmonia com o progresso da razão humana, fez-se nascer, entre alguns, o deísmo, entre outros, a incredulidade absoluta, entre outros o panteísmo, quer dizer que o homem fez a si mesmo Deus, na falta de ver um bastante perfeito.

ARGUMENTOS EM APOIO DAS PENAS ETERNAS.

10. – Voltemos ao dogma da eternidade das penas. O principal argumento que se invoca, em seu favor, é este:

"Está admitido, entre os homens, que a gravidade da ofensa é proporcional à qualidade do ofendido. Aquela que é cometida contra um soberano, sendo considerada como mais grave do que aquela que não concerne senão a um simples súdito, é punida mais severamente. Ora, Deus é mais do que um soberano; uma vez que é infinito, a ofensa contra ele é infinita, e deve ter um castigo infinito, quer dizer, eterno."

Refutação. – Toda refutação é um raciocínio que deve ter o seu ponto de partida numa base sobre a qual se apoie, premissas, em uma palavra. Tomemos essas premissas nos próprios atributos de Deus:

Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.

É impossível conceber Deus de outra forma que não seja o infinito das perfeições; sem o que não seria Deus, porque se poderia conceber um ser possuidor do que lhe faltasse. Para que seja único, acima de todos os seres, é preciso que ninguém possa superá-lo nem igualá-lo no que quer que seja. Portanto, é preciso que seja infinito em tudo.

Sendo os atributos de Deus infinitos, não são suscetíveis nem de aumento nem de diminuição; sem isso, não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se se tirasse a menor