O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1342

12. – A isso, responde-se que o pecador que se arrepende antes de morrer, experimenta a misericórdia de Deus, e que, então, o maior culpado pode encontrar graça diante dele.

Isso não se coloca em dúvida e concebe-se que Deus não perdoe senão ao arrependido, e seja inflexível para com os endurecidos; mas se ele é cheio de misericórdia para a alma que se arrepende antes de ter deixado o seu corpo, por que cessaria de sê-lo para aquela que se arrepende depois da morte? Por que o arrependimento não teria eficácia senão durante a vida, que é apenas um instante, e não o teria mais durante a eternidade, que não tem fim? Se a bondade e a misericórdia de Deus estão circunscritas em um tempo dado, elas não são infinitas e Deus não é infinitamente bom.

13. – Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é a justiça mais inexorável, nem a que deixa toda falta impune; é aquela que tem a conta, a mais rigorosa, do bem e do mal, que recompensa um e pune o outro na mais equânime proporção, e nunca se engana.

Se, para uma falta temporária, que sempre é o resultado da natureza imperfeita do homem, e, freqüentemente, do meio onde se encontra, a alma pode ser punida eternamente, sem esperança de alívio e de perdão, não há nenhuma proporção entre a falta e a punição: não há, pois, justiça.

Se o culpado retorna a Deus, se arrepende e pede para reparar o mal que fez, é um retorno ao bem, aos bons sentimentos. Se o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem não tem fruto; uma vez que não se levou em conta o bem, não há justiça. Entre os homens, o condenado que se emenda vê a sua pena comutada, às vezes mesmo suprimida; haveria, pois, na justiça humana, mais eqüidade do que na justiça divina!

Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil; o culpado, não tendo nada a esperar do seu retorno ao bem, persiste no mal; de modo que não somente Deus o condena a sofrer perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal pela eternidade. Não estariam aí nem a justiça e nem a bondade.

14. – Sendo infinito em todas as coisas, Deus deve tudo conhecer, o passado e o futuro, deve saber, no momento da criação de uma alma, se ela falirá, assaz gravemente, para