O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1346

do; ora, uma vez condenado, todo o progresso estaria detido. Eis, pois, um homem salvo porque viveu longo tempo, e que, segundo a doutrina das penas eternas, teria se perdido para sempre se tivesse vivido menos, o que poderia resultar de um acidente

fortuito. Desde que a sua alma pôde progredir em um tempo dado, por que não poderia progredir no mesmo tempo depois da morte, se uma causa independente da sua vontade lhe impediu de fazê-lo durante a sua vida? Por que Deus ter-lhe-ia recusado os meios? O arrependimento, embora tardio, teria ocorrido a tempo; mas, se, desde o instante de sua morte, uma condenação irremissível o atingisse, seu arrependimento teria sido infrutífero pela eternidade, e sua aptidão para progredir destruída para sempre.

21. – O dogma da eternidade absoluta das penas é, pois, irreconciliável com o progresso da alma, uma vez que a ele oporia um obstáculo invencível. Esses dois princípios se anulam, forçosamente, um pelo outro; se um existe, o outro não pode existir. Qual dos dois existe? A lei do progresso é patente: não é uma teoria, é um fato constatado pela experiência; é uma lei natural, lei divina, imprescritível; uma vez, pois, que ela existe, e que não pode se conciliar com a outra, é que a outra não existe. Se o dogma da eternidade das penas fosse uma verdade, Santo Agostinho, São Paulo e muitos outros, não teriam jamais visto o céu se tivessem morrido antes do progresso que trouxe a sua conversão.

A esta última assertiva responde-se que a conversão desses santos personagens não foi um resultado do progresso da alma, mas da graça que lhes foi concedida e pela qual foram tocados. Mas, aqui, é fazer um jogo de palavras. Se fizeram o mal, e mais tarde o bem, é que se tornaram melhores; então progrediram. Deus lhes teria, pois, por um favor especial, concedido a graça de se corrigirem? Por que a eles e não aos outros? É sempre a doutrina dos privilégios, incompatível com a justiça de Deus, e seu amor igual para com todas as suas criaturas.

Segundo a Doutrina Espírita, de acordo com as próprias palavras do Evangelho, com a lógica e a mais rigorosa justiça, o homem é o filho de suas obras, durante esta vida e depois da morte; não deve nada ao favor: Deus o recompensa pelos seus esforços, e pune-o pela sua negligência, tão longo tempo quanto seja negligente.