O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1348

Por que, pois, querer, a toda força, sustentar uma crença que cai em desuso, e que, em definitivo, faz mais de mal do que de bem para a religião? Ai! é triste dizer, mas uma questão material domina aqui a questão religiosa. Essa crença foi largamente explorada, com a ajuda do pensamento vigente de que, com dinheiro, poder-se-ia abrir as portas do céu, e se preservar do inferno. As somas que ela produziu, e que produz ainda, são incalculáveis; é o imposto levantado sobre o medo da eternidade. Sendo esse imposto facultativo, o produto é proporcional à crença; se a crença não existe mais, o produto se torna nulo. A criança dá, voluntariamente, seu bolo àquele que lhe promete livrá-la do lobisomem; mas quando a criança não crê mais no lobisomem, guarda o seu bolo.

24. – A nova revelação, dando idéias mais sadias  da vida futura, e provando que se pode  chegar  à  salvação  pelas próprias obras, deve reencontrar uma  oposição  tanto mais viva quanto mais seca uma fonte mais importante de produtos. Assim ocorre cada vez que uma descoberta, ou uma invenção, vêm mudar os hábitos. Aqueles que vivem dos antigos usos custosos, os enaltecem e desacreditam os novos, mais econômicos. Crê-se, por exemplo,  que  a imprensa, malgrado os serviços que deveria prestar à Humanidade, deva ter sido aclamada pela numerosa classe dos copistas? Não, certamente; eles deveram maldizê-la. Assim deve ter sido com as máquinas, as estradas de ferro e cem outras coisas.

Aos olhos dos incrédulos o dogma da eternidade das penas é uma questão fútil da qual se riem; aos olhos  do filósofo tem uma gravidade social pelos abusos aos quais dá lugar; o homem verdadeiramente religioso vê a dignidade da religião interessada na destruição desses abusos e da sua causa.

EZEQUIEL CONTRA A ETERNIDADE DAS PENAS E O PECADO ORIGINAL

25. – Àqueles que pretendam encontrar, na Bíblia, justificava da eternidade das penas, pode-se opor os textos contrários que não deixam nenhuma ambigüidade. As palavras seguintes, de Ezequiel, são a negação, a mais explícita, não somente das penas irremissíveis, mas da responsabili-