O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VII - AS PENAS FUTURAS SEG.O ESPIRITISMO 1352

uma secreção, mais ou menos abundante, de bílis ou outros fluidos. É assim, por exemplo, que o guloso sente chegar a saliva à boca diante de uma comida apetitosa. Não é a comida que pode superexcitar o órgão do gosto, uma vez que com ele não tem contato; é, pois, o Espírito, cuja sensualidade é despertada, que age, pelo pensamento, sobre esse órgão, ao passo que, sobre um outro, a visão dessa comida não produz nenhum efeito. É, ainda, pela mesma razão que uma pessoa sensível verte, facilmente, as lágrimas; não é a abundância das lágrimas que dá a sensibilidade ao Espírito, mas é a sensibilidade do Espírito, que provoca a secreção abundante das lágrimas. Sob o império da sensibilidade, o organismo está apropriado para essa disposição normal do Espírito, como estava apropriado à do Espírito guloso.

Seguindo essa ordem de idéias, compreende-se que um Espírito irascível deve possuir um temperamento bilioso; de onde se segue que um homem não é colérico porque seja bilioso, mas, que é bilioso porque é colérico. Ocorre o mesmo com todas as outras disposições instintivas; um Espírito mole e indolente deixará o seu organismo num estado de atonia com relação ao seu caráter, ao passo que, se é ativo e enérgico, dará ao seu sangue, aos seus nervos, qualidades muito diferentes. A ação do Espírito sobre o físico é de tal modo evidente, que se vêem, freqüentemente, graves desordens orgânicas se produzirem pelo efeito de violentas comoções morais. A expressão vulgar: A emoção lhe altera o sangue não está tão privada de sentido como se poderia crer; ora, o que pôde alterar o sangue senão as disposições morais do Espírito?

Pode-se, pois, admitir que o temperamento é, pelo menos em parte, determinado pela natureza do Espírito, que é causa e não efeito. Dizemos em parte porque há casos em que o físico, evidentemente, influi sobre o moral: é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa externa, acidental, independente do Espírito, como a temperatura, o clima, os vícios hereditários de constituição, um malestar passageiro, etc. O moral do Espírito pode, então, ser afetado, em suas manifestações, pelo estado patológico, sem que a sua natureza intrínseca seja modificada.

Escusar-se, de suas faltas, em razão da fraqueza da carne, não é, pois, senão um subterfúgio para escapar da responsabilidade. A carne não é fraca senão porque o Espírito