O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VIII - OS ANJOS 1370

Várias dificuldades capitais resultam desse sistema. Qual é, primeiro, essa vida puramente material? Trata-se da matéria bruta? Mas a matéria bruta é inanimada, e não tem vida por si mesma. Quer se referir às plantas e aos animais? Seria, então uma quarta ordem na criação, porque não se pode negar que haja, no animal, mais inteligência do que numa planta, e nesta mais do que numa pedra. Quanto à alma humana, que é a transição, está unida diretamente a um corpo que não é senão da matéria bruta, porque, sem alma, não tem mais vida do que um torrão de terra.

Esta divisão, evidentemente, deixa de ter clareza, e não concorda com a observação; assemelha-se à teoria dos quatro elementos, tombada diante dos progressos da ciência. Admitamos, portanto, estes três termos: a criatura espiritual, a criatura humana e a criatura corporal; tal é, diz-se, o plano divino, plano majestoso e completo, como convinha à sabedoria eterna. Notemos, primeiro, que, entre esses três termos, não há nenhuma ligação necessária; são três criações distintas, formadas sucessivamente; de uma à outra há solução de continuidade; ao passo que, na Natureza, tudo se encadeia, tudo nos mostra uma admirável lei de unidade, onde todos os elementos, que não são senão transformações uns dos outros, têm seu traço de união. Essa teoria é verdadeira, no sentido em que esses três termos existem evidentemente; apenas é incompleta; faltam-lhe os pontos de contato, como é fácil demonstrar.

 

4. – Esses três pontos culminantes da criação, diz a Igreja, são necessários à harmonia do conjunto; que haja um só de menos e a obra estará incompleta, e não estará mais segundo a sabedoria eterna. Entretanto, um dos dogmas fundamentais da religião diz que a Terra, os animais, as plantas, o Sol, as estrelas, a própria luz, foram criados e tirados do nada,  há seis mil anos. Antes dessa época, não haveria, pois, nem criatura humana, nem criatura corporal durante a eternidade decorrida, a obra divina tinha, pois, ficado imperfeita. A criação do Universo remontando há seis mil anos, é, de tal modo capital, um artigo de fé que ainda há poucos anos, a ciência era anatematizada porque vinha destruir a cronologia bíblica, provando a alta antiguidade da Terra e de seus habitantes.

Entretanto, o concílio de Latrão, concílio ecumênico que