O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IX - OS DEMÔNIOS 1379

honra das potências malfazejas são as mais numerosas: o medo leva o melhor sobre o reconhecimento.

Durante muito tempo, o homem não compreendeu senão o bem e o mal físico; o sentimento do bem moral e do mal moral marca um progresso na inteligência humana; só então o homem entrevê a espiritualidade, e compreende que o poder sobre-humano está fora do mundo visível, e não nas coisas materiais. Isso foi a obra de certas inteligências de elite que, não obstante, não puderam transpor certos limites.

4. – Como se via uma luta incessante entre o bem e o mal, e este, freqüentemente vencer aquele; que, de outro lado, não se podia admitir, racionalmente, que o mal fosse a obra de uma potência benfazeja, disso se concluiu a existência de duas potências rivais governando o mundo. Daí nasceu a doutrina dos dois príncipes: o do bem e do mal, doutrina lógica para certa época, porque o homem era, ainda, incapaz de conceber uma outra, e de penetrar a essência do Ser supremo. Como teria podido compreender que o mal não é senão um estado momentâneo, do qual pode sair o bem, e que os males que o afligem devem conduzi-lo à felicidade, ajudando o seu adiantamento? As limitações do seu horizonte moral não lhe permitiam ver nada fora da vida presente, nem depois e nem antes; não poderia compreender nem que havia progredido, nem que progrediria, ainda, individualmente, e ainda menos que as vicissitudes da vida são da imperfeição do ser espiritual que está nele, que preexiste e sobrevive ao corpo, e se depura numa série de existências, até que alcance a perfeição. Para compreender o bem que pode sair do mal, não se pode ver uma única existência; é preciso abarcar o conjunto: só então aparecem as verdadeiras causas e os seus efeitos.

5. – O duplo princípio do bem e do mal, durante longos séculos, e sob diferentes nomes, foi a base do todas as crenças religiosas. Foi personificado sob o nome de Oromaze e Arimane entre os Persas, de Jeová e de Satã entre os Hebreus. Mas como todo soberano deve ter ministros, todas as religiões admiram as potências secundárias, ou gênios bons ou maus. Os Pagãos os identificam sob uma multidão inumerável de individualidades, tendo, cada uma, atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as virtudes, aos quais deram o nome genérico de deuses.