O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IX - OS DEMÔNIOS 1381

conseqüência, igual a Deus. Deus, então, não é mais único; há o Deus do bem e o Deus do mal.

É posterior? Então, é uma criatura de Deus. Uma vez que ele não faz senão o mal, que é incapaz de fazer o bem e de se arrepender, Deus criou um ser votado, perpetuamente, ao mal.

Se o mal não é a obra de Deus, mas a de uma das suas criaturas predestinada a fazê-lo, dele sempre Deus é o primeiro autor, e, então, não é infinitamente bom. Ocorre o mesmo com todos os seres maus chamados demônios.

8. – Tal foi, durante muito tempo, a crença sobre esse ponto. Hoje, se diz (1):

"Deus, que é a bondade e a santidade por essência, não os teria criado maus e malfazejos. Sua mão paternal, que se compraz em derramar, sobre todas as suas obras, um reflexo das suas perfeições infinitas, os havia cumulado de seus mais magníficos dons. Às qualidades sobreeminentes de sua natureza, havia acrescentado a generosidade da sua graça; fizera-os em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes que estão na glória e na felicidade; distribuídos em todas as ordens, e misturados em todas as classes, tinham o mesmo fim e os mesmos destinos; seu chefe foi o mais belo dos arcanjos. Teriam podido, eles também, merecer ser confirmados, para sempre, na justiça e admitidos a gozarem, eternamente, a felicidade dos céus. Esse último favor teria coroado a todos os outros favores dos quais foram objeto; mas deveria ser o prêmio  da  sua docilidade,  e  deles  se tornaram indignos; perderam por uma revolta audaciosa e insensata.

"Qual foi o escolho de sua perseverança? Qual verdade desconheceram? Qual ato de fé, e de adoração, recusaram a Deus? A Igreja e os anais da história santa não o dizem, de maneira positiva; mas parece certo que não aquiesceram nem à mediação do Filho de Deus, nem à exaltação da natureza humana em Jesus Cristo.

"O verbo divino, para o qual todas as coisas foram feitas, é também o único mediador e salvador, no céu e na


(1) As citações seguintes foram extraídas da pastoral do Eminentíssimo Cardeal Gousset, cardeal arcebispo de Reims, pelo carisma de 1865. Em razão do mérito pessoal e da posição do autor, podemos considerá-las como sendo a última palavra da Igreja sobre a doutrina dos demônios.