O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IX - OS DEMÔNIOS 1383

partilhavam seus sentimentos acolheram as suas palavras com um murmúrio de aprovação; e se encontravam em todas as ordens da hierarquia; mas a sua multidão não os colocou ao abrigo do castigo."

9. – Essa doutrina levanta várias objeções.

1º Se Satã e os demônios eram anjos, era porque eram perfeitos; sendo perfeitos, como puderam falir e, nesse ponto, desconhecer a autoridade de Deus, em cuja presença se encontravam? Conceber-se-ia, ainda, se não tivessem chegado a esse grau eminente senão gradualmente e após  passarem pela fileira da imperfeição, que teriam podido ter um retorno deplorável; mas o que torna a coisa mais incompreensível é que no-los apresentam como tendo sido criados perfeitos.

A conseqüência dessa teoria é esta: Deus, tendo querido criar, neles, seres perfeitos, uma vez que os cumulara de todos os dons, enganou-se; portanto, segundo a Igreja, Deus não é infalível. (1)

2º Uma vez que nem a Igreja e nem os anais da história não explicam a causa da revolta dos anjos contra Deus, que somente parece certo que estava na sua recusa de reconhecer a missão futura do Cristo, que valor pode ter o quadro, tão preciso e tão detalhado, da cena que teve lugar nessa ocasião? De qual fonte foram hauridas as palavras, tão claramente narradas como tendo sido pronunciadas até por simples murmúrios? De duas coisas uma: ou a cena é verdadeira, ou não o é. Se é verdadeira, não há nenhuma incerteza, e, então, por que a Igreja não resolve o dilema? Se a Igreja e a história se calam, se somente a causa parece


(1) Essa doutrina monstruosa foi afirmada por Moisés, quando disse (Gênese, cap. VI, v. 6 e 7): "Ele se arrependeu de ter feito o homem sobre a Terra. E, estando tocado de dor até o fundo do coração, disse: "Exterminarei, de sobre a Terra, o homem que criei; exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde tudo o que rasteja sobre a terra até os pássaros do céu; porque eu me arrependi de tê-los feito."

Um Deus que se arrepende do que fez não é nem perfeito e nem infalível: portanto, não é Deus. Essas são, pois, as palavras que a Igreja proclama como sendo verdades santas. Não se vê muito, o que havia de comum entre os animais e a perversidade do homem, para merecer o seu extermínio.