O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IX - OS DEMÔNIOS 1384

certa, isso não é senão uma suposição, e a descrição da cena não é senão uma obra da imaginação. (1)

3º As palavras atribuídas a Lúcifer acusam uma ignorância que se espanta em encontrá-las num arcanjo que, pela sua própria natureza e o grau em que está colocado não deve partilhar, sobre a organização do Universo, os erros e os preconceitos que os homens professaram, até que a ciência tivesse vindo esclarecê-los. Como pôde dizer: "Estabelecerei a minha morada acima dos astros; dominarei as mais elevadas nuvens"? É sempre a antiga crença, tendo a Terra como centro do mundo, no céu de nuvens que se alongam até as estrelas, na região limitada das estrelas formando abóbada, e que a Astronomia nos mostra disseminadas ao infinito, no espaço infinito. Tendo em vista que, hoje, se sabe que as nuvens não se estendem além de duas léguas da superfície da Terra, para dizer que dominaria as nuvens mais elevadas, e falar de montanhas, seria preciso que a cena se passasse sobre a superfície da Terra, e que aí fosse a morada dos anjos; se essa morada estivesse nas regiões superiores, seria inútil dizer que se elevaria acima das nuvens. Dar aos anjos uma linguagem eivada de ignorância é confessar que os homens, hoje, sabem mais a respeito, do que os anjos. A Igreja comete sempre o erro de não levar em conta os progressos da ciência.


(1) Encontra-se em Isaías, cap. XIV, v. 11 e seguintes: – "Teu orgulho foi precipitado nos infernos; teu corpo morto e tombado por terra; tua cama será a podridão, e tuas vestes serão os vermes. – como tombastes do céu, Lúcifer, tu que parecias tão brilhante ao romper do dia? Como foste derrubado sobre a terra, tu que atingias com flagelos as nações; que dizias em teu coração: Eu subirei ao céu, estabelecerei o meu trono acima dos astros de Deus, me assentarei sobre a montanha da aliança, nos flancos do Aquilon; colocar-me-ei acima das nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Mais Alto? E, contudo, foste precipitado dessa glória, no inferno, até o mais profundo dos abismos. Aqueles que te verão, aproximar-se-ão junto de ti, e, depois de encarar-te, dir-te-ão: Está aqui aquele homem que apavorou a terra, que lançou o terror nos reinos, que fez do mundo um deserto, que lhe destruiu as cidades, e que reteve, nas prisões, aqueles que fizera seus prisioneiros?"

Essas palavras do profeta, não são relativas à revolta dos anjos, mas uma alusão ao orgulho e à queda do rei da Babilônia, que mantinha os Judeus em cativeiro, assim como provam os últimos versículos. O rei da Babilônia é designado, alegoricamente, sob o nome de Lúcifer, mas não fez nenhuma menção da cena descrita acima. Essas palavras são as do rei que dizia em seu coração, e se colocava, pelo seu orgulho, acima de Deus, cujo povo mantinha cativo. A predição da libertação dos Judeus, da ruína da Babilônia e da derrrota dos Assírios é, aliás, o objeto exclusivo desse capítulo.