O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IX - OS DEMÔNIOS 1386

para a sua perda irrevogável, e para a maior parte do gênero humano. Qualquer coisa que se diga, é impossível conciliar a sua criação, em uma semelhante previsão, com a soberana bondade. Se não o sabia, não era, pois, todo-poderoso. Num e no outro caso, é a negação de dois atributos sem a plenitude dos quais não seria Deus.

12. – Se se admite a falibilidade dos anjos, igual à dos homens, a punição é uma conseqüência, natural e justa, da falta; mas se se admite, ao mesmo tempo, a possibilidade do resgate, pelo retorno ao bem, a reentrada na graça, depois do arrependimento e da expiação, nada tem que desminta a bondade de Deus. Deus sabia que faliriam, que seriam punidos, mas, sabia, também, que, esse castigo temporário seria um meio de fazê-los compreender a sua falta e redundaria em seu favor. Assim se confirmariam estas palavras do profeta Ezequiel: "Deus não quer a morte do pecador, mas a sua salvação. (1)" O que seria a negação dessa bondade, seria a inutilidade do arrependimento e a impossibilidade do retorno ao bem. Nessa hipótese, é, pois, rigorosamente exato dizer que: "Esses anjos, desde a sua criação, uma vez que Deus não poderia ignorá-lo, foram votados ao mal perpetuamente, e predestinados a se tornarem demônios, para arrastar os homens ao mal."

Vejamos, agora, qual é a sua sorte e o que fazem.

13. – "Mal sua revolta se manifestou na linguagem dos Espíritos, quer dizer, no impulso dos seus pensamentos, foram banidos, irrevogavelmente, da cidade celeste e precipitados no abismo."

"Por essas palavras entendemos que foram relegados a um lugar de suplício, onde sofressem a pena do fogo, conforme este texto do Evangelho, que saiu da própria boca do Salvador: "Ide, malditos, ao fogo eterno que foi preparado para os demônios e seus anjos." São Pedro diz, expressamente: "que Deus os entregou às cadeias e torturas do inferno; mas nem todos aí ficam perpetuamente; não será senão no fim do mundo que serão presos, para sempre, com os condenados. Presentemente, Deus permite que ocupem, ainda, um lugar na criação à qual pertencem; na ordem das coisas às quais se prende sua existência, nas relações, enfim, que deviam ter


(1) Ver, acima, cap. VII, nº 20, citação de Ezequiel.