O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IX - OS DEMÔNIOS 1391

18. – "São depois do pecado o que o homem é depois da morte. A reabilitação daqueles que tombaram é, pois, impossível." De onde vem essa impossibilidade? Não se compreende que seja a conseqüência de sua semelhança com o homem depois da morte, proposição que, de resto, não é muito clara. Essa impossibilidade vem de sua própria vontade ou vem de Deus? Se é o fato de sua vontade, isso denota uma extrema perversidade, um endurecimento absoluto no mal; desde então, não se compreende que seres tão essencialmente maus puderam ser anjos de virtude, e que, durante o tempo indefinido que passaram entre estes últimos, não tenham deixado transparecer nenhum traço de sua natureza má. Se é a vontade de Deus, compreende-se ainda menos que inflija, como castigo, a impossibilidade de retorno ao bem, depois de uma primeira falta. O Evangelho não diz nada de semelhante.

19. – "Sua perda, acrescenta-se, é doravante sem retorno, e perseveram no seu orgulho diante de Deus." De que lhes serviria de não perseverarem, uma vez que todo arrependimento é inútil? Se tivessem a esperança de uma reabilitação, por qualquer preço que fosse, o bem teria uma finalidade para eles, ao passo que não a têm. Se perseveram no mal, é, pois, porque a porta da esperança lhes está fechada. E por que Deus lhes fecha? Para se vingar da ofensa que recebeu com a sua falta de submissão. Assim, para saciar o seu ressentimento, contra alguns culpados, prefere vê-los, não somente sofrer, mas fazerem o mal antes que o bem; induzir ao mal e impelir à perdição eterna todas as suas criaturas do gênero humano, quando bastaria um simples ato de clemência para se evitar um tão grande desastre, e um desastre previsto de toda a eternidade!

Tratar-se-ia, por ato de clemência, de uma graça pura e simples que, talvez, fosse um encorajamento ao mal? Não, mas de um perdão condicional, subordinado a um sincero retorno ao bem. Em lugar de uma palavra de esperança e de misericórdia, fé como se Deus dissera: Pereça toda a raça humana, antes que a minha vingança!  E admira-se que, com uma tal doutrina, hajam incrédulos e ateus! É assim que Jesus nos representa seu Pai? Ele que nos fez uma lei expressa do esquecimento e do perdão das ofensas, que nos disse pagar o mal com o bem, que coloca o amor aos inimigos na primeira classe das virtudes que devem nos merecer o céu, queria,