O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO X - INTERVENÇÃO DO DEMÔNIOS 1397

da antiga serpente, falam e são escutados; dogmatizam e são acreditados; misturam às suas mentiras algumas verdades, e fazem aceitar o erro sob todas as formas. É aí que desembocam as pretensas revelações de além-túmulo; é para obter esse resultado que a madeira, a pedra, as florestas e as nascentes, o santuário dos ídolos, o pé de mesas, a mão de crianças, representam oráculos; é para isso que a pitonisa profetiza em seu delírio, e que o ignorante, num misterioso sono, torna-se, de repente, o doutor da ciência. Enganar e perverter, tal é, em toda parte e em todos os tempos, o objetivo final dessas estranhas manifestações.

"Os resultados supreendentes dessas observações ou desses atos, na maioria bizarros e ridículos, não podendo proceder de sua virtude intrínseca, nem da ordem estabelecida por Deus, não se pode esperá-los senão do concurso de forças ocultas. Tais são, notadamente, os fenômenos extraordinários obtidos, em nossos dias, pelos procedimentos, em aparência inofensivos, do magnetismo, e o órgão inteligente das mesas falantes. Por meio dessas operações da magia moderna, vemos se produzir, entre nós, as evocações e os oráculos, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas. Como outrora, ordena-se à madeira e a madeira obedece; interrogam-lhe, e ela responde em todas as línguas e sobre todas as questões; encontra-se em presença de seres invisíveis que usurpam o nome dos mortos, cujas pretensas revelações estão marcadas com o selo da contradição e da mentira; formas leves e sem consistência aparecem de repente, e se mostram dotadas de uma força sobre humana.

"Quais são os agentes secretos desses fenômenos e os verdadeiros atores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos não aceitariam esses papéis indignos, e não se prestariam a todos os caprichos de uma vã curiosidade. As almas dos mortos, que Deus proíbe consultar, moram numa morada que lhes marcou a sua justiça, e não podem sem a sua permissão, colocar-se às ordens dos vivos. Os seres misteriosos que se entregam, assim, à primeira chamada do herético e do ímpio, como do fiel do crime tão bem quanto da inocência, não são nem os enviados de Deus, nem os apóstolos da verdade e da salvação, mas os cúmplices do erro e do inferno. Apesar do cuidado que tomam, escondendo-se sob os nomes mais veneráveis, eles se traem pelo nada de suas