O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO XI - DA PROIBIÇÃO DE EVOCAR OS MORTOS 1416

encontrarem um argumento contra as idéias novas, não se aperceberam que esse argumento é completamente falso.

A lei civil de nossos dias pune todos os abusos que Moisés queria reprimir. Se Moisés decretou a pena de morte contra os delinqüentes, foi porque precisava de meios rigorosos para governar esse povo indisciplinado; também a pena de morte está prodigalizada em sua legislação; não havia, de resto, grande escolha em seus meios de repressão; não existiam nem prisões, nem casas de correção no deserto, e seu povo não era de natureza a temer penas puramente disciplinares; não podia aumentar a sua penalidade como se faz em nossos dias. É, pois, erradamente que se apóia na severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Seria preciso, por respeito à lei de Moisés, manter a pena capital para todos os casos em que ele a aplicava? Aliás, por que reviver com tanta insistência esse artigo, quando se silencia o começo do capítulo que proíbe aos sacerdotes possuírem bens da Terra, de terem parte em alguma herança, porque é o próprio Senhor a sua herança? (Deuteronômio, cap. XXVIII, vv. 1 e 2.)

5. – Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita, promulgada no Monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes e ao caráter do povo; uma é invariável, a outra se modifica segundo os tempos, e não pode vir ao pensamento de ninguém que possamos ser governados pelos mesmos meios que os hebreus no deserto, não menos que os capitulares de Carlos Magno não poderiam se aplicar na França do décimo-nono século. Quem sonharia, por exemplo, reviver hoje este artigo da lei mosaica: "Se um boi fere com seu chifre um homem ou uma mulher, e que disso morram, o boi será lapidado, e não se comerá de sua carne; mas o dono do boi será julgado inocente." (Êxodo, cap. XXI, v. 28 e seg.)

Este artigo, que nos parece tão absurdo, não tinha, todavia, por finalidade punir o boi e pagar o seu senhor, simplesmente, equivalia ao confisco do animal, por causa do acidente, para obrigar o proprietário a mais vigilância. A perda do boi era a punição ao seu dono, punição que devia ser bastante sensível, em um povo pastor, para que não fosse necessário inflingir-lhe outra;  entretanto,  ela  não  devia aproveitar a