O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO I 1423

dolorosa. É a alma quem sofre e não o corpo; este não é senão o instrumento da dor: a alma é o paciente. Depois da morte, estando o corpo separado da alma, pode ser impunemente mutilado, porque não sente nada; a alma, estando dele isolada, não recebe nenhum dano da desorganização deste último; ela tem as suas sensações próprias cuja fonte não está na matéria tangível.

O perispírito é o envoltório fluídico da alma, da qual não está separado nem antes, nem depois da morte, e com a qual não faz, por assim dizer, senão um, porque um não se pode conceber sem o outro. Durante a vida, o fluido perispiritual penetra o corpo, em todas as suas partes, e serve de veículo às sensações físicas da alma; é também por esse intermédio que a alma atua sobre o corpo e dirige-lhe os movimentos.

4. – A extinção da vida orgânica provoca a separação da alma e do corpo, pela ruptura do laço fluídico que os une; mas essa separação jamais é brusca; o fluido perispiritual se separa pouco a pouco de todos os órgãos, de sorte que a separação não é completa e absoluta senão quando não reste mais um único átomo do perispírito unido a uma molécula do corpo. A sensação dolorosa, que a alma sente nesse momento, está em razão da soma dos pontos de contato que existem entre o corpo e o perispírito, e da maior ou menor dificuldade e lentidão que apresente a separação. Não é preciso, pois, dissimular-se que, segundo as circunstâncias, a morte pode ser mais ou menos penosa. São estas diferentes circunstâncias que iremos examinar.

5. – Coloquemos primeiro, como princípio, os quatro casos seguintes, que podem ser consideradas as situações extremas, entre as quais há uma multidão de nuanças: 1º Se no momento da extinção da vida orgânica o desligamento do perispírito estivesse completamente operado, a alma não sentiria absolutamente nada; 2º se, nesse momento, a coesão dos dois elementos está com toda sua força, produz-se uma espécie de dilaceramento que reage dolorosamente sobre a alma; 3º se a coesão é fraca, a separação é fácil e se opera sem abalo; 4º se, depois da cessação completa da vida orgânica, existem ainda numerosos pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a alma poderá sentir os efeitos da decomposição do corpo, até que o laço esteja inteiramente rompido.