O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO I 1424

Disso resulta que o sofrimento, que acompanha a morte, está subordinado à força de aderência que une o corpo e o perispírito; que tudo o que pode ajudar na diminuição dessa força e na rapidez do desligamento torna a passagem menos penosa; enfim, que se o desligamento se opera sem nenhuma dificuldade, a alma não sente nenhuma sensação desagradável.

6. – Na passagem da vida corpórea para a vida espiritual, produz-se, ainda, um outro fenômeno de importância capital: o da perturbação. Nesse momento, a alma sente um entorpecimento que paralisa, momentaneamente, as suas faculdades e neutraliza, pelo menos em parte, as sensações; está, por assim dizer, cataleptizada, de sorte que quase nunca testemunha consciente o último suspiro. Dizemos quase nunca porque há um caso em que pode dele ter consciência, assim como o veremos daqui a pouco. A perturbação pode, pois, ser considerada como estado normal no instante da morte; a sua duração é indeterminada; varia de algumas horas a alguns anos. À medida que ela se dissipa, a alma está na situação do homem que sai de um sono profundo; as idéias estão confusas, vagas e incertas; vê-se como através de um nevoeiro; pouco a pouco a visão se ilumina, a memória retorna e ela se reconhece. Mas esse despertar é bem diferente, segundo os indivíduos; nuns é calmo e proporciona uma sensação deliciosa; noutros, é cheio de terror e ansiedade, e produz o efeito de um horrível pesadelo.

7. – O momento do último suspiro não é, pois, o mais penoso, porque, o mais comumente, a alma não tem consciência de si mesma; mas antes, ela sofre pela desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e depois, pelas angústias da perturbação. Apressemo-nos em dizer que esse estado não é geral. A intensidade e a duração do sofrimento, como dissemos, estão em razão da afinidade que existe entre o corpo e o perispírito; quanto mais essa afinidade é grande, mais os esforços do Espírito, para se libertar de seus laços, são longos e penosos; mas há pessoas nas quais a coesão é tão fraca que o desligamento se opera por si mesmo e naturalmente. O Espírito se separa do corpo como um fruto maduro se destaca de seu caule; é o caso das mortes calmas e de sonhos pacíficos.

8. – O estado moral da alma é a causa principal que