O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO II 1444

que nos inspira a vossa vida exemplar, descrever-nos como se efetuou, para vós, a passagem da vida corpórea para a vida espiritual, assim como a vossa situação no mundo dos Espíritos? – R. De bom grado; esse relato não será útil somente a vós, ele o será também para mim. Referindo-me aos meus pensamentos na Terra, a comparação me faz compreender melhor ainda a bondade do Criador.

Sabeis de quantas tribulações a minha vida foi semeada; jamais me faltou coragem na adversidade, Deus, obrigado! E hoje me felicito por isso. Quantas coisas teria perdido se cedesse ao desencorajamento! Só a esse pensamento eu tremo, que, pelo meu desfalecimento, o que suportei teria sido sem proveito e tudo estaria por recomeçar. Ó meus amigos! que possais vos compenetrar bem desta verdade; ela vale pela vossa felicidade futura. Não, certamente, não é comprar essa felicidade muito cara, senão de pagá-la por alguns anos de sofrimento. Se soubésseis o quanto alguns anos são pouca coisa em presença do infinito!

Se a minha última existência teve algum mérito aos vossos olhos, não diríeis o mesmo daquelas que a precederam. Não foi senão à força do trabalho, sobre mim mesmo, que me fiz o que sou agora. Para apagar os últimos traços das minhas faltas anteriores, era-me necessário ainda suportar essas últimas provas que voluntariamente aceitei. Hauri na firmeza das minhas resoluções a força para suportá-las sem murmúrio. A essas provas, eu as bendigo hoje; com elas rompi com o passado, que não é mais para mim senão uma lembrança, e posso contemplar doravante com uma legítima satisfação o caminho que percorri.

Ó vós que me fizestes sofrer na Terra, que fostes duros e malevolentes para comigo, que me humilhastes e me enchestes de aflição, cuja má fé, freqüentemente, reduziu-me às mais duras provações, não só vos perdoo, mas vos agradeço. Querendo fazer-me o mal, não desconfiastes que me fazíeis tanto bem. É portanto verdade que a vós devo, em grande parte, a felicidade de que gozo, porque me fornecestes ocasião de perdoar e de pagar o mal com o bem. Deus vos colocou em meu caminho para provar a minha paciência e me exercitar na prática da caridade mais difícil: a do amor aos seus inimigos.

Não vos impacienteis com esta digressão; chego ao que me perguntais.