O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO II 1445

Embora sofrendo cruelmente em minha última enfermidade, não tive agonia; a morte veio, para mim, como o sono, sem luta, sem abalos. Não tendo apreensão quanto ao futuro, não me agarrei à vida; conseqüentemente, não me debati sob as últimas opressões; a separação operou-se sem esforços, sem dor, e sem que disso tenha me apercebido.

Ignoro o quanto durou esse último sono, mas foi curto. O despertar foi de uma calma que contrastava com o meu estado precedente; não sentia mais dor, e com isso me regozijava; queria me levantar, caminhar, mas um entorpecimento, que nada tinha de desagradável, que tinha mesmo um certo encanto, me retinha, e me abandonei a ele com uma espécie de volúpia, sem dar-me nenhuma conta da minha situação, e sem duvidar de que havia deixado a Terra. O que me rodeava aparecia-me como num sonho. Vi a minha mulher e alguns amigos ajoelhados no quarto e chorando, e me disse que, sem dúvida, eles me acreditavam morto; quis desenganá-los, mas não pude articular nenhuma palavra, de onde concluí que sonhava. O que me confirmou essa idéia, foi que me vi cercado de várias pessoas amadas, mortas há muito tempo, e outras que não reconheci à primeira vista, e que pareciam velar sobre mim e esperar o meu despertar.

Esse estado foi entremeado de instantes de lucidez e de sonolência, durante os quais recobrava e perdia, alternativamente, a consciência do meu eu. Pouco a pouco as minhas idéias adquiriram mais clareza; a luz que não entrevia senão através de um nevoeiro fez-se mais brilhante; então comecei a me reconhecer e compreendi que não pertencia mais ao mundo terrestre. Se não houvera conhecido o Espiritismo, a ilusão, sem dúvida, prolongar-se-ia por muito mais tempo.

Meus despojos mortais não estavam ainda enterrados e eu os considerava com piedade, felicitando-me por estar, enfim, desembaraçado deles. Estava tão feliz por estar livre! Respirava à vontade como alguém que sai de uma atmosfera nauseante; uma inefável sensação de felicidade penetrava todo o meu ser; a presença daqueles que amara enchia-me de alegria; não estava de nenhum modo surpreso por vê-los; isso me parecia muito natural, mas parecia-me revê-los depois de uma longa viagem. Uma coisa me espantou, de início, foi que nos compreendíamos sem articular nenhuma palavra; os nossos pensamentos se transmitiam unicamente pelo olhar e como por uma penetração fluídica.