O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO II 1446

Entretanto, não estava ainda completamente liberto das idéias terrestres; a lembrança do que suportara me retornava de vez em quando à memória, como para fazer-me apreciar melhor a nova situação. Eu sofrera corporalmente, mas sobretudo moralmente; fora alvo da malevolência, dessas mil perplexidades mais penosas, talvez, que as infelicidades reais, porque causam uma ansiedade perpétua. Sua impressão não estava inteiramente apagada, e, às vezes, me perguntava se dela estava realmente desembaraçado; parecia-me ainda ouvir certas vozes desagradáveis; eu conhecia os embaraços que me atormentaram tão freqüentemente, e tremia apesar de mim; eu me tateava, por assim dizer, para assegurar-me de que não era o joguete de uma ilusão; e quando adquiri a certeza de que tudo isso estava bem acabado, pareceu-me que um peso enorme me fora retirado. Portanto, dizia-me, era bem verdade que estava enfim livre de todos esses cuidados que fazem o tormento da vida, e por isso rendia graças a Deus. Estava como um pobre que, de repente, herdou uma grande fortuna; durante algum tempo, duvidou da realidade e sentiu as apreensões da necessidade. Oh! Se os homens compreendessem a vida futura, que força, que coragem esta convicção não lhes daria na adversidade! Que não fariam, enquanto estão na Terra, para se assegurarem da felicidade que Deus reserva àqueles dos seus filhos que foram dóceis às suas leis! Veriam o quanto os gozos que invejam são pouca coisa perto daqueles que eles negligenciam!

P. Nesse mundo tão novo para vós, e perto do qual o nosso é tão pouca coisa, os numerosos amigos que aí reencontrastes vos fizeram perder de vista a vossa família e os vossos amigos na Terra? – R. Se os houvera esquecido, seria indigno da felicidade que desfruto; Deus não recompensa o egoísmo, ele o pune. O mundo onde estou pode me fazer desdenhar a Terra, mas não os Espíritos que nela estão encarnados. Não é senão entre os homens que se vê a prosperidade fazer esquecer os companheiros de infortúnio. Freqüentemente, vou rever os meus; sou feliz pela boa lembrança que guardam de mim; os seus pensamentos me atraem para eles; assisto às suas conversas, alegro-me com as suas alegrias, suas dificuldades me entristecem, mas não é essa tristeza ansiosa da vida humana, porque compreendo que não são senão passageiras e são para o seu bem. Fico feliz em pensar que, um dia, eles virão para esta morada afortunada onde a dor é desconhecida. É para torná-los dignos disso,