O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO II 1449

– R. Uma vez afogado, sim. – P. Por que não antes? – R. Tu os conheces. (O médium, efetivamente, conhecia-os.) – P. Quereis, pois, descrever-me as vossas sensações depois de vossa morte?

R. Passei muito tempo antes de me reconhecer, mas com a graça de Deus e a ajuda daqueles que me cercavam, quando a luz se fez, fui inundado. Tu podes esperar: encontrarás sempre mais do que esperavas. Nada de material; tudo fere os sentidos ocultos; o que não podem tocar nem o olho e nem a mão; tu me compreendes? É uma admiração espiritual que ultrapassa o vosso entendimento, porque não existem palavras para explicá-la: isso não se pode sentir senão com a alma.

O meu despertar foi muito feliz. A vida é um desses sonhos que, apesar da idéia grosseira que se liga a esse nome, não posso qualificar senão de pesadelo horrível. Sonho de que estás encerrado em um calabouço infecto, que teu corpo roído pelos vermes que se introduzem até a medula dos ossos, está suspenso sobre uma fornalha ardente; que a boca ressecada não encontra mesmo o ar para refrescá-la; que o teu Espírito, tomado de horror, não vê ao teu redor senão monstros prestes a te devorarem; imaginai, enfim, tudo o que o fantástico do sonho pode produzir de mais hediondo, de mais horrível, e, de repente, te encontras transportado para um Éden delicioso. Despertas cercado por aqueles que amaste e choraste; vês, ao redor de ti, rostos adorados te sorrirem com bondade; respiras os mais suaves perfumes, refrescas a tua garganta ressecada na fonte de água viva; sentes teu corpo elevado no espaço infinito que o carrega e balouça como faz a brisa com uma flor solta do topo de uma árvore; tu te sentes envolvido pelo amor de Deus, como a criança que nasce está envolvida pelo amor de sua mãe, e não terás senão uma idéia imperfeita dessa transição. Tratei de explicar a felicidade da vida que espera o homem depois da morte de seu corpo, mas não pude. Explica-se o infinito àquele que tem os olhos fechados à luz e cujos membros jamais puderam sair do círculo estreito onde estão encerrados? Para explicar-te a felicidade eterna eu te direi: ama! Porque só o amor pode fazer-te pressenti-la; e quem diz amor diz ausência de egoísmo.

P. A vossa posição foi feliz desde a vossa reentrada no mundo dos Espíritos? – R. Não; tive de pagar a dívida do