O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO II 1469

pensamentos e esforço-me por neutralizar aqueles que os maus Espíritos procuram sugerir.

BERNARDIN.

A CONDESSA PAULA

Era uma mulher jovem, bela, rica, de um ilustre nascimento segundo o mundo e, por outro lado, um modelo acabado de todas as qualidades do coração e do espírito. Ela morreu aos trinta e seis anos, em 1851. Era uma dessas pessoas cuja oração fúnebre se resume nestas palavras, em todas as bocas: "Por que Deus retira, tão cedo, tais pessoas da Terra?" Felizes aqueles que fazem assim bendizer a sua memória! Ela era boa, doce e indulgente para todo o mundo; sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal, em lugar de agravá-lo; nunca a maledicência manchou os seus lábios. Sem arrogância, nem orgulho, tratava os seus inferiores com uma benevolência que nada tinha da  baixa  familiaridade,  e  sem tomar diante deles ares de grandeza ou de uma proteção humilhante. Compreendendo que as pessoas que vivem de seu trabalho não são capitalistas, e que têm necessidade do dinheiro que lhes é devido, seja por seu estado, seja para viver, jamais ela fez esperar um salário; o pensamento de que alguém pudesse sofrer de uma falta de pagamento por sua culpa, era-lhe um remorso de consciência. Não era dessas pessoas que procuram sempre o dinheiro para satisfazerem as suas fantasias, e não o têm nunca para pagarem o que devem; ela não compreendia que pudesse ser de bom gosto, para um rico, ter dívidas, e ficaria humilhada podendo-se dizer que  os  seus fornecedores  eram  obrigados  a    fazer-lhe adiantamentos. Também, em sua morte, não houve senão lamentos, e nenhuma reclamação.

A sua beneficência era inesgotável, mas não era essa beneficência oficial, que se expõe publicamente; nela era a caridade do coração e não da ostentação. Só Deus sabe as lágrimas que ela secou, e os desesperos que acalmou, porque essas boas ações não tinham por testemunhas senão ela e os infelizes que assistia. Sabia, sobretudo, descobrir esses infortúnios ocultos, que são os mais pungentes, e que socorria com a delicadeza que eleva o moral, ao invés de abaixá-lo.

Sua posição e as altas funções de seu marido obriga-